Uma nuvem de fumaça encobriu cidades do Centro-Oeste na manhã desta
quinta-feira (13/08). O principal motivo é a atual situação do Pantanal.
O bioma, localizado em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, enfrenta o
maior volume de queimadas nas últimas décadas. A piora das condições
ambientais, que costuma vir acompanhada de aumento de problemas
respiratórios e de saúde na população, agora se soma também à pandemia
de coronavírus.
A região Centro-Oeste foi uma das últimas a serem duramente afetadas
pela covid-19 no Brasil. Em julho, a nova doença cresceu em diversos
Estados da região que antes figuravam entre os menos atingidos pelo novo
coronavírus, como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Hoje,
a região é a segunda com maior incidência de casos a cada 100 mil
habitantes — 2.044,1 —, atrás apenas do Norte (2.517,7 casos a cada 100
mil habitantes).
Incêndio
Em
Cuiabá (MT), um incêndio de grandes proporções, nas margens da Rodovia
Helder Cândia, conhecida como Estrada da Guia, piorou a situação.
As chamas começaram na tarde de quarta-feira (12/08), em uma área de Cerrado (outro bioma regional), e logo se alastraram.
Os bombeiros conseguiram conter o fogo somente na manhã do dia
seguinte, justamente quando as chamas, associadas aos efeitos das
queimadas no Pantanal, levaram fuligem e fumaça para a capital
mato-grossense e regiões vizinhas.
Em toda a região Centro-Oeste, o
número de focos de incêndio detectados neste ano é 20% superior ao
registrado entre janeiro e 12 de agosto de 2019.
Pantanal: pior seca e maior número de incêndios
A atual situação do Pantanal, maior área úmida continental do planeta, preocupa ambientalistas.
O
bioma enfrenta a sua maior seca dos últimos 47 anos. Especialistas
apontam que a quantidade de chuva no primeiro semestre foi 40% abaixo do
esperado.
O Pantanal enfrenta ainda o pior período de queimadas desde o fim dos
anos 90 — quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)
desenvolveu a plataforma que se tornou referência para monitorar focos
de calor no país.
Segundo o Inpe, entre o início de janeiro e o
dia 12 de agosto deste ano, houve alta de 242% no número de focos de
incêndio no Pantanal em comparação com o mesmo período do ano anterior.
De
janeiro a julho deste ano, foram registrados 4.218 focos de incêndio em
todo o Pantanal. Nos mesmos meses em 2019, foram 1.475 registros.
"Nessa
época do ano, a região Centro-Oeste passa pelo período mais seco. Isso
faz com que as queimadas se tornem mais presentes e a fumaça fique mais
evidente", diz o gerente do programa Cerrado-Pantanal do WWF-Brasil,
Júlio Sampaio.
"É comum, nessas cidades (próximas ao Pantanal),
acordar pela manhã e parecer que há névoa. Na verdade, é fumaça
proveniente das queimadas no Pantanal. Essa fumaça, associada com a
fuligem e o tempo seco, faz com que áreas fiquem completamente cinzas,
como aconteceu em Cuiabá hoje (13/08)", declara.
Ele ressalta que
cidades como Corumbá e Campo Grande, ambas em Mato Grosso do Sul, e
Cuiabá e Poconé, em Mato Grosso, costumam ser as mais afetadas pela
fumaça vinda do Pantanal.
De acordo com dados do Inpe, Corumbá foi
o município brasileiro que registrou mais focos de incêndio neste ano:
3.918. Em segundo lugar, vem Apuí (AM), com 1.725 focos.
"Tudo
isso é proveniente da intensificação de incêndios florestais, que tem
várias causas, principalmente o uso indiscriminado do fogo em um período
muito seco, sem chuva", diz.
Especialistas afirmam que a
fiscalização no Pantanal reduziu no último ano, após sucateamento de
órgãos fiscalizadores como o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente
(Ibama), em meio a ações do governo federal.
A situação do fogo em
outros biomas varia — no Cerrado, que também inclui os Estados de Mato
Grosso e Mato Grosso do Sul, o nível de focos está semelhante ao do ano
passado, diz Ane Alencar, diretora de ciência do Instituto de Pesquisa
Ambiental da Amazônia (Ipam).
Já na Amazônia, o cenário é também
bastante preocupante, com dados já mostrando que o número de focos em
junho e julho deste ano foram maiores do que no período anterior.
Efeitos para a saúde
Júlio
Sampaio, do WWF-Brasil, lembra que a seca é mais comum neste período,
mas se associa neste ano a um recorde de queimadas e à pior pandemia da
história recente.
"Os atendimentos por problemas respiratórios
causados pela fumaça e pela fuligem sempre sobrecarregam o sistema de
saúde. Isso acaba tirando o espaço ou a dedicação de energia para os
cuidados com a covid-19. Por isso, é fundamental que haja gestão e
fiscalização em relação aos incêndios florestais, para que eles não
ocorram, principalmente, durante este período", afirma à BBC News
Brasil.
Dados das secretarias de saúde estaduais apontam que Mato
Grosso teve 70,6 mil casos de covid-19 e 2.245 mortes. Já em Mato Grosso
do Sul foram confirmados 34,5 mil casos e 570 mortes pelo novo
coronavírus.
Conforme a Secretaria Estadual de Saúde, em Mato
Grosso do Sul há ocupação de 75,6% dos leitos de Unidade de Terapia
Intensiva (UTI) destinados à covid-19. Já em Mato Grosso, segundo a
pasta estadual, a atual ocupação de leitos de UTI é de 72,3%. Em julho,
os dois estados chegaram a se aproximar do colapso na saúde pública — a
situação, segundo autoridades locais, amenizou principalmente após a
abertura de novos leitos.
Pneumologista baseada em Campo Grande
(MS), Eliana Setti explica que doenças respiratórias são típicas desta
época do ano, mas a chegada da covid-19 pode levar a uma maior demanda
do sistema de saúde e até mesmo à confusão de diagnósticos.
"O ar
está muito seco e, junto com o vento, isso irrita as vias aéreas. Os
efeitos deletérios acontecem mais para os extremos de idades: crianças e
idosos", explica.
"Além da possível semelhança de quadros, é
preciso atentar para a prevenção tanto da covid quando para as doenças
respiratórias (típicas)", diz, destacando a importância do uso de
máscaras e distanciamento social para a primeira e, no segundo caso, a
hidratação.
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