Inspirado nos EUA, Bolsonaro adota tática de troll: testar limites para ganhar visibilidade, diz filósofo
Enviada por:
Nogueira Jr.
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
![]() |
| Para Nunes, presidente e seu entorno querem monopolizar eleitorado conservador no Brasil e não ligam para a economia |
Giuliana Vallone
Da BBC News Brasil em São Paulo -
Em entrevista à BBC News Brasil, ele diz que foi justamente assim que o político chegou aonde chegou.
"Você perguntava para as pessoas qual era o atrativo dele e a conversa era sempre 'Ah, ele fala o que todo mundo pensa'. Aí você apontava para alguma coisa que ele tinha dito, dizia que era grave, e recebia como resposta: 'Ah não, mas ele está só brincando'", afirma. "Ou seja, é a figura que ao mesmo tempo fala o que todo mundo está pensando e está só brincando, a figura do troll, justamente, que está sempre nesse jogo dúbio, entre o que é brincadeira e o que é sério."
"Ele está sempre introduzindo temas que são 'polêmicos' — que na verdade são comentários racistas, homofóbicos ou machistas etc. —, e a reação [de indignação] provocada atrai atenção para ele, lhe dá visibilidade", avalia.
"Você perguntava para as pessoas qual era o atrativo dele e a conversa era sempre 'Ah, ele fala o que todo mundo pensa'. Aí você apontava para alguma coisa que ele tinha dito, dizia que era grave, e recebia como resposta: 'Ah não, mas ele está só brincando'", afirma. "Ou seja, é a figura que ao mesmo tempo fala o que todo mundo está pensando e está só brincando, a figura do troll, justamente, que está sempre nesse jogo dúbio, entre o que é brincadeira e o que é sério."
"Ele está sempre introduzindo temas que são 'polêmicos' — que na verdade são comentários racistas, homofóbicos ou machistas etc. —, e a reação [de indignação] provocada atrai atenção para ele, lhe dá visibilidade", avalia.
Para ele, antes mesmo da consagração da chamada alt-right
americana, Bolsonaro já adotava a tática em sua carreira como
parlamentar, baseado em uma "compreensão instintiva que ele tinha de sua
posição política na época, totalmente periférica — ele era um político
completamente sem importância, cuja única visibilidade vinha disso."
O processo, porém, se aprofunda no período de transição entre a
campanha presidencial e sua ascensão ao cargo. "Você tem um grupo de
pessoas que a gente poderia descrever como sendo o núcleo ideológico do
bolsonarismo, os formuladores da tentativa de dar uma identidade própria
ao que seria o bolsonarismo, que a partir de um determinado momento
começam a adotar um linguajar, uma série de pontos discursivos e de
traços que são claramente tomados da alt-right americana."
Nesta semana, Bolsonaro ofendeu a jornalista Patrícia Campos Mello, do jornal Folha de S.Paulo, ao dizer que a repórter "queria dar o furo a qualquer preço contra mim".
O ataque foi feito após um ex-funcionário de uma agência de disparos de mensagens em massa por WhatsApp dizer, sem apresentar qualquer prova, que a jornalista teria tentado "se insinuar" sexualmente para ele em busca de informações. A declaração ocorreu na semana passada, durante depoimento do ex-funcionário à CPMI das Fake News no Congresso, e foi endossada na ocasião também pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente.
Autor do livro Organisation of the Organisationless: Collective Action after Networks ("Organização dos sem organização, ação coletiva após as redes", em tradução livre), Nunes rebate, em parte, a teoria de que declarações controversas de membros do governo sejam tentativa de criar uma "cortina de fumaça" para ocultar ações do Planalto.
"É possível identificar no timing de algumas declarações, de pronunciamentos, um interesse em desviar o rumo da conversa. No conteúdo, por outro lado, para você dizer que a declaração da ministra [da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos] Damares Alves, por exemplo, de meninos vestirem azul e meninas, rosa, é uma cortina de fumaça para disfarçar a reforma da Previdência, você precisa acreditar que esse conservadorismo de valores seria uma característica acidental, secundária, do bolsonarismo. E eu acho que não é."
Segundo ele, é exatamente esse tipo de declaração o que mantém o núcleo duro do bolsonarismo fidelizados. "De certa maneira, se a gente entende o bolsonarismo como a tentativa de consolidar esse eleitorado conservador como sendo uma força política, um capital político de monopólio da família Bolsonaro, a gente pode dizer inclusive que é a reforma da Previdência que é inteiramente acidental para eles. Na verdade, eles não ligam muito para a economia."
Seu novo livro, Beyond the Horizontal - Rethinking the Question of Organisation ("Além do horizontal - repensando a questão da organização", em tradução livre), será publicado neste ano pela editora britânica Verso. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.
BBC News Brasil - Em que se baseia a estratégia de comunicação do governo Jair Bolsonaro?
Rodrigo Nunes - Essa estratégia já não é de hoje, acompanhou toda a campanha do Bolsonaro à Presidência e caracterizava a atuação dele como parlamentar, que no final das contas era justamente uma atuação muito mais midiática do que propriamente parlamentar — a gente sabe que, como legislador dentro do Congresso, a participação dele sempre foi pífia.
Ela se assemelha bastante às estratégias comunicativas da extrema direita americana, da chamada alt-right, uma constelação de grupos que ficaram mais visíveis durante a campanha de Donald Trump à Presidência. E tem essa característica muito marcante de explorar a tática que, na linguagem da internet, se chama edgelord ["o senhor do limite", em tradução livre], a figura que está sempre forçando o limite daquilo que pode ser dito numa situação qualquer.
Ele está sempre introduzindo temas que são "polêmicos" — que na verdade são comentários racistas, homofóbicos ou machistas etc. —, e a reação [de indignação] provocada atrai atenção para ele, lhe dá visibilidade. Eventualmente, se a reação [às declarações] for muito negativa, ele sempre pode dar um passo atrás e dizer: "Eu estava brincando, as pessoas não sabem mais brincar, a gente vive numa cultura que cerceia a liberdade de expressão".
Entrevista Completa, ::AQUI::
Nesta semana, Bolsonaro ofendeu a jornalista Patrícia Campos Mello, do jornal Folha de S.Paulo, ao dizer que a repórter "queria dar o furo a qualquer preço contra mim".
O ataque foi feito após um ex-funcionário de uma agência de disparos de mensagens em massa por WhatsApp dizer, sem apresentar qualquer prova, que a jornalista teria tentado "se insinuar" sexualmente para ele em busca de informações. A declaração ocorreu na semana passada, durante depoimento do ex-funcionário à CPMI das Fake News no Congresso, e foi endossada na ocasião também pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente.
Autor do livro Organisation of the Organisationless: Collective Action after Networks ("Organização dos sem organização, ação coletiva após as redes", em tradução livre), Nunes rebate, em parte, a teoria de que declarações controversas de membros do governo sejam tentativa de criar uma "cortina de fumaça" para ocultar ações do Planalto.
"É possível identificar no timing de algumas declarações, de pronunciamentos, um interesse em desviar o rumo da conversa. No conteúdo, por outro lado, para você dizer que a declaração da ministra [da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos] Damares Alves, por exemplo, de meninos vestirem azul e meninas, rosa, é uma cortina de fumaça para disfarçar a reforma da Previdência, você precisa acreditar que esse conservadorismo de valores seria uma característica acidental, secundária, do bolsonarismo. E eu acho que não é."
Segundo ele, é exatamente esse tipo de declaração o que mantém o núcleo duro do bolsonarismo fidelizados. "De certa maneira, se a gente entende o bolsonarismo como a tentativa de consolidar esse eleitorado conservador como sendo uma força política, um capital político de monopólio da família Bolsonaro, a gente pode dizer inclusive que é a reforma da Previdência que é inteiramente acidental para eles. Na verdade, eles não ligam muito para a economia."
Seu novo livro, Beyond the Horizontal - Rethinking the Question of Organisation ("Além do horizontal - repensando a questão da organização", em tradução livre), será publicado neste ano pela editora britânica Verso. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.
BBC News Brasil - Em que se baseia a estratégia de comunicação do governo Jair Bolsonaro?
Rodrigo Nunes - Essa estratégia já não é de hoje, acompanhou toda a campanha do Bolsonaro à Presidência e caracterizava a atuação dele como parlamentar, que no final das contas era justamente uma atuação muito mais midiática do que propriamente parlamentar — a gente sabe que, como legislador dentro do Congresso, a participação dele sempre foi pífia.
Ela se assemelha bastante às estratégias comunicativas da extrema direita americana, da chamada alt-right, uma constelação de grupos que ficaram mais visíveis durante a campanha de Donald Trump à Presidência. E tem essa característica muito marcante de explorar a tática que, na linguagem da internet, se chama edgelord ["o senhor do limite", em tradução livre], a figura que está sempre forçando o limite daquilo que pode ser dito numa situação qualquer.
Ele está sempre introduzindo temas que são "polêmicos" — que na verdade são comentários racistas, homofóbicos ou machistas etc. —, e a reação [de indignação] provocada atrai atenção para ele, lhe dá visibilidade. Eventualmente, se a reação [às declarações] for muito negativa, ele sempre pode dar um passo atrás e dizer: "Eu estava brincando, as pessoas não sabem mais brincar, a gente vive numa cultura que cerceia a liberdade de expressão".
Entrevista Completa, ::AQUI::

Comentários