Jornalista francês denuncia o círculo de
interessados em uma conspiração no Vaticano, composto pelo setor de mega
milionários ultraconservadores, que usa sua influência e poder
econômico para assediar o sumo pontífice
“Para mim, é uma honra que os norte-americanos me ataquem”, disse o Papa
Francisco quando o jornalista francês Nicolas Senèze, correspondente do
diário católico La Croix em Roma, mostrou a ele o
livro-reportagem sobre o complô estadunidense contra o seu papado,
durante a viagem de avião que os levou a Moçambique. O título da obra é
“Como a América atua para substituir o Papa” (o título original é
“Comment l’Amérique veut changer de Pape”).
Os detalhes desse
complô e os nomes dos protagonistas e dos grupos envolvidos estão
claramente expostos nas páginas do livro, que descrevem, desde o seu
início, a mecânica da hostilidade contra o papado atual. O operativo tem
até o nome de “Relatório Chapéu Vermelho” (“The Red Hat Report”). Um
círculo preciso que move dinheiro e influência e é organizado pelos
setores ultraconservadores e de mega milionários dos Estados Unidos. As
peças deste jogo de calúnias e poder se encaixam em um complexo
quebra-cabeças, que os adversários do pontífice vêm armando nos últimos
anos. O golpe começou a ser fomentado em Washington, no ano de 2018. O
grupo de ultraconservadores se reuniu na capital norte-americana para
fixar duas metas: atingir a figura de Francisco da forma mais destrutiva
possível e adiantar sua sucessão, para escolher, entre os atuais
cardeais, o mais adequado aos interesses conservadores.
O
“Relatório Chapéu Vermelho” foi organizado por um grupo de ex-policiais,
ex-membros do FBI (Departamento Federal de Investigações dos Estados
Unidos), advogados, operadores políticos, jornalistas e acadêmicos que
trabalharam no estudo da vida e das ideias de cada um dos cardeais, com o
fim de destruir as carreiras dos que não interessam, ou beneficiar as
daqueles que pretendem impor como substituto de Francisco, quando chegue
o momento oportuno. E enquanto esse momento não chega, o grupo busca
preparar o terreno para o que Senèze chama de “um golpe de Estado contra
o Papa Francisco”.
Em uma manhã de 2017, Roma amanheceu coberta
com cartazes contra o Papa. Foi o primeiro ato da ofensiva: o segundo, e
certamente o mais espetacular, aconteceu em agosto de 2018, quando,
pela primeira vez na história do Vaticano, um cardeal tornou pública uma
carta exigindo a renúncia de Francisco. O autor foi o monsenhor Carlo
Maria Vigamo, ex-núncio do Vaticano nos Estados Unidos. O correspondente
do La Croix no Vaticano detalha a odisseia maligna deste grupo
de poder em sua missão por tirar do caminho um Papa cujas posições
contra o neoliberalismo, contra a pena de morte, a favor dos imigrantes e
sua inédita defesa do meio ambiente através da encíclica Laudato Sí
promove uma corrente contrária à desses empresários. Os conspiradores
não têm nada de santos: são adeptos da teologia da prosperidade, possuem
empresas ligadas mercado financeiro e de seguros, e estão envolvidos
até com a exploração da Amazônia. Francisco é uma pedra em seus sapatos,
uma cruz sobre suas ambições.
Segundo Senèze, organizações de
caridade como “Os Cavaleiros de Colombo” (que possuem cerca de 100
bilhões de dólares, graças às companhias de seguros que administram), o
banqueiro Frank Hanna, a rede de meios de comunicação Eternal World Television Network (EWTN),
cujo promotor (o advogado Timothy Busch) também é criador do Instituto
Napa, que tem a missão de difundir “uma visão conservadora e favorável à
liberdade econômica”, estão entre os membros mais ativos do complô. Mas
também há outros, como George Weigel e seu famoso think tank, o Centro de Ética e Política Pública. No diálogo com o jornal argentino Página/12, Senèze fala sobre a trama que, apesar do poder de suas, ainda não foi capaz de derrubar o Papa.
Pergunta:
Parece uma história de novela, mas é uma história real. O Papa
Francisco foi e é objeto de uma das campanhas mais densas já vistas
contra um sumo pontífice.
Nicolas Senèze: O Papa Francisco
não serve aos interesses desse grupo de empresários ultraconservadores,
e por isso decidiram atacá-lo. Atuam como se fosse o conselho de
administração de uma empresa, quando se despede o diretor porque ele não
alcançou os objetivos desejados. Essa gente conta com enormes recursos
financeiros, e mesmo assim, durante o mandato de Francisco, não
conseguiram influenciar sua linha de pensamento. Por isso, começaram a
se aproximar de pessoas de dentro da Igreja que também estão contra
Francisco. Algumas delas, como o monsenhor Vigamo, chegaram a exigir
publicamente sua renúncia. Creio que esse grupo de ultraconservadores
superestimaram suas forças. O monsenhor Carlo Maria Vigamo, por exemplo,
não calculou a lealdade das pessoas dentro do Vaticano, que não estavam
dispostas a trair o Papa, mesmo as que são críticas de Francisco.
Pergunta: A operação que organiza o “Relatório Chapéu Vermelho” tinha dois objetivos, um para agora e outro para o futuro.
Senèze:
Efetivamente. Como não puderam derrubar o Papa, tentam agora uma nova
estratégia. Francisco tem 84 anos, e podemos pensar que estamos cerca do
fim do seu pontificado. O que estão fazendo é preparar o próximo
conclave. Para isso, estão investindo muito dinheiro, contratado
ex-membros do FBI para preparar dossiê sobre os cardeais que
participarão da eleição. O primeiro objetivo é destruir aqueles que têm a
intenção de continuar as reformas aplicadas pelo Papa Francisco.
Depois, buscar um substituto adequado aos seus interesses. O problema
desta meta é que, ao menos até agora, não eles não contam com nenhum
candidato verosímil. Não será fácil para eles. Entretanto, podem ir bem
no trabalho de arranhar a credibilidade dos candidatos reformistas, e
dessa forma, podem levar à eleição de um reformista fraco e manipulável,
que ceda a pressão em favor de desmontar as reformas de Francisco. Para
isso, contam com muito poder econômico e influência. Creio
profundamente que a maioria dos católicos norte-americanos respaldam o
Papa Francisco. Mas nos Estados Unidos, a quantidade não basta. O que
fala mais alto é o fator dinheiro.
Pergunta: Esses grupos já existiam antes, mas nunca atuaram com tanta força.
Senèze:
São empresários com enormes meios à sua disposição. Cada um deles foi
criando seu grupo de reflexão dentro da Igreja, sua escola de teologia,
sua universidade católica, sua equipe de advogados para defender a
liberdade religiosa. É uma nebulosa operação, que funciona mediante uma
rede de instituições privadas, e que chegou para dominar o catolicismo
norte-americano. São, por exemplo, aqueles que doaram muito dinheiro
para ajudar as dioceses estadunidenses que tiveram que pagar enormes
indenizações após a revelação dos casos de abuso sexual. Por isso, podem
impor uma direção ideológica a essas dioceses. Por exemplo, Tim Busch
está presente em todas as etapas dessa montagem. Para proteger poderosos
interesses econômicos na Amazônia, esses grupos usam toda a sua força
para desviar a atenção e evitar, assim, a promoção de ideias em defesa
da ecologia. Trabalham sempre para distrair a atenção dos debates
fundamentais. Por exemplo, nos sínodos, buscam impor seus pontos de
vista, ou seja, seus interesses.
Pergunta: E como um grupo tão poderoso pode deixar que Francisco fosse eleito Papa?
Senèze:
Não perceberam que isso ocorreria, porque a eleição de Francisco foi
resultado de uma dinâmica que envolveu outras necessidades: este Papa
foi eleito devido à crise no seio da instituição, graças à vontade dos
bispos do mundo inteiro de recuperar a após anos de problemas gerados
por erros do passado, que levaram, por exemplo, à omissão diante dos
casos de abuso sexual. Bergoglio se impôs porque era o mais disposto a
reformar essa Igreja. Mas sua ideologia choca com a visão que os
católicos ultraconservadores dos Estados Unidos têm sobre qual é o papel
da Igreja. Além disso, outro ingrediente próprio do catolicismo
estadunidense é o desprezo dos católicos brancos pelos latinos. O setor
conhecido pela sigla WASC (“white anglo saxon catholics”, ou “católicos
brancos anglo-saxões”) odeia os latinos, os considera pobres
fracassados. Os WASC são muito influenciados pela teologia da
prosperidade difundida pelos evangélicos.
Pergunta: Donald Trump atua nesse jogo?
Senèze:
Não creio que Trump tenha muitas convicções próprias. Ele certamente os
escuta, mas quem tem mais proximidade com esse setor é o
vice-presidente Mike Pence. As diferenças entre Washington e o Vaticano
são muitas: o tema da pena de morte, a postura de Francisco contrária a
um liberalismo fora de controle, entre outras. O Papa, é hoje um dos
principais opositores aos fundamentos do poder econômico dos Estados
Unidos.
*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli
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