
Por Tereza Cruvinel, Blog do Miro -
A condescendência da mídia brasileira para com Bolsonaro não pode chegar
ao ponto de ignorar, ou relegar a notas e registros secundários, a
gritante suspeita de que haja uma grossa história de corrupção,
envolvendo a própria família do presidente, na crise política que agita o
Paraguai, por conta do acordo secreto sobre a divisão da energia de
Itaipu. Lá, o presidente Mario Abdo Benítez voltou a enfrentar o risco
de impeachment. Aqui, o PT pediu ontem à Procuradoria Geral da República
a abertura de investigações contra Bolsonaro, o chanceler Ernesto
Araújo e o presidente brasileiro de Itaipu, general Luna e Silva, mas
isso também será ignorado ou jogado aos pés de página.
Pela mídia grande, Bolsonaro não é corretamente qualificado como de extrema-direita, como fazem, referindo-se a ele, veículos de todo o mundo. Produz mentiras diárias e não é chamado de mentiroso. E mesmo declarando ostensivamente que usa o aparelho de Estado para se vingar da mídia, dela não recebe a nomeação correta de seu ato: prevaricação. Ele mesmo confessou: “No dia de hoje, eu retribuí parte daquilo que grande parte da mídia me atacou”. Truncado, mas compreensível. A retribuição foi a assinatura de MP que subtrai dos jornais a receita obtida com a publicação anual de balanços, providência a que estão obrigadas as empresas de capital aberto. Bolsonaro as presenteia com a publicação gratuita dos balanços no Diário Oficial da União. Ou seja, faz cortesia com o dinheiro público para se vingar, para satisfazer seu interesse pessoal. Prevarica, além de atentar indiretamente contra a liberdade de imprensa ao tentar interferir na saúde financeira das empresas do setor. Não vi, entretanto, a tal MP ser condenada com o necessário rigor, pela gravidade que encerra.
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