Imprensa desonesta: Comitê da ONU era sério e apartidário quando negou cautelar a Lula, agora não vale nada.
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| Sarah Cleveland (Foto: Reprodução) |
por Joaquim de Carvalho, DCM -
A imprensa, que praticamente
ignorou o comitê de direitos humanos da ONU no episódio da decisão
favorável a Lula, deu destaque ao órgão em maio deste ano, quando a
decisão tomada era desfavorável a Lula.
A defesa do ex-presidente havia pedido
medida cautelar da ONU para obrigar o Estado brasileiro a libertar Lula,
enquanto os recursos não fossem julgados pelas cortes superiores no
Brasil.
O jornal O Globo deu à notícia o título
“Comitê da ONU rejeita recursos da defesa contra prisão de Lula” e a
publicou na página principal tanto do G1 quanto do jornal. O Estadão destacou “ONU rejeita pedido de Lula contra a prisão”.
E fez um editorial em que ataca a defesa de Lula:
“O recurso à ONU prestava-se tão somente a
tentar escamotear o fato de que Lula da Silva é um criminoso comum, um
cidadão brasileiro que, diante das graves acusações oferecidas contra
ele pelo Ministério Público Federal, foi submetido ao devido processo
legal e condenado após a apresentação de seus argumentos de defesa”.
Fez ironia diante da declaração do porta-voz do comitê de que não seriam condidas medidas cautelares no caso de Lula.
“Resta saber se a ONU também faz parte do ‘complô’ contra o ex-presidente”, tripudiou o jornal.
Em um trecho do editorial, reconheceu a legitimidade do comitê:
“A decisão do Comitê de Direitos Humanos
da ONU de indeferir o pedido cautelar para libertação imediata de Lula
da Silva não significa o fim do processo naquela instituição. No
entanto, ela indica seu mais provável desfecho. Caso estivesse mesmo
diante de um flagrante episódio de violação de direitos humanos, o órgão
não hesitaria em atuar rápida e pontualmente para mudar a situação,
dando ao menos conforto moral ao injustiçado. Não foi o que ocorreu”.
O jornal também elogiou o órgão da ONU
encarregado de supervisionar e monitorar o acordo sobre direitos civis e
políticos, do qual o Brasil é signatário:
“Uma vez mais, fica claro que
‘narrativas’ e discursos falaciosos podem ter apelo no mundo das
paixões. O mundo dos fatos pede outro tipo de abordagem. A versão da
‘perseguição política’ pode mobilizar militantes, mas não órgãos sérios e
apartidário.”
Agora, depois que a ONU exigiu respeito
ao direito de Lula de participar da campanha eleitoral e determinou que
sejam tomadas providências nesse sentido, inclusive acesso à imprensa, o
jornal vai manter a opinião de que o comitê é um órgão sério ou
apartidário?
Ou vai se inspirar em comentaristas como
Carlos Alberto Sardenberg, da Globo, para dizer que a decisão não tem
valor, só serviu para alimentar “fake news”?
O Estadão foi só o veículo mais
apaixonado naquela questão, ao usar ONU como veículo para expressar suas
próprias conclusões, desejos e visão de mundo.
Mas não foi o único a agir com desonestidade perante o público, quando confrontadas as repercussões nos dois casos.
Em maio, a TV Justiça, sob a autoridade
do Supremo Tribunal Federal, noticiou a recusa do comitê de conceder
cautelar a Lula no caso da prisão, mas ignorou a notícia da cautelar
concedida para Lula participar das eleições.
A EBC, sob controle do governo Temer,
também noticiou, e com destaque, a decisão de rejeitar a cautelar, em
maio, mas agora deixou o público sem saber que o comitê de direitos
humanos acatou o pedido da defesa de Lula para que ele participe da
campanha.
Pelo que dizem os especialistas, a ONU
não pode impor sanções ao Brasil pelo desrespeito a uma medida concedida
pelo órgão com autoridade para “supervisionar e monitorar” os tratados
internacionais.
Não haverá tropas internacionais
invadindo o Brasil ou a proibição de comércio com empresas brasileiras.
Mas o país será considerado violador de tratado internacional, um país
que não respeita o que assina.
Portanto, a ONU não PEDIU que o Brasil
respeite o direito de Lula fazer campanha, como maliciosamente informam
os veículos do Grupo Globo. DETERMINOU.
Mas, como não tem poder de sanção, vai
apenas dar conhecimento ao mundo de que o Brasil não cumpre tratado de
que é signatário. E isso não é pouca coisa.
O episódio escancara mais uma vez a decadência institucional do Brasil.
Uma presidente foi retirada do cargo sem
crime de responsabilidade, Lula foi condenado sem prova e sem
demonstração de conduta criminosa.
Teve um alvará de soltura ignorado.
Agora, para manter Lula longe da campanha, as instituições, na prática, rasgaram um tratado internacional.
A violência é tão explícita que, até no ambiente interno, os defensores da prisão de Lula diminuem.
Não é por outra razão que Lula tem hoje a
maior aprovação entre 17 personalidades pesquisadas, à frente do juiz
Sergio Moro, de acordo com a pesquisa Ipsos/Estadão.
E aparece na pesquisa CNT/MDA para
presidente com o dobro das intenções de voto do segundo colocado, muito
próximo de uma eleição em primeiro turno.
Resultados que surgem mesmo com Lula encarcerado há quase cinco meses, sem direito a dar entrevista ou gravar vídeo.
São sinais de que cada vez menos brasileiros acreditam na velha imprensa e seus aliados nas instituições do Estado.

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