"Jornalista joga nas costas do governo federal a responsabilidade pela apuração jornalistica
Patricia Faermann, GGN
Fernando Rodrigues respondeu em seu blog o motivo de não ter divulgado a lista de nomes envolvidos com as contas secretas do caso conhecido como Swiss Leaks. "Quais nomes e contas bancárias serão divulgados? Em primeiro lugar, os que tiverem interesse público, e, portanto, jornalístico. Em segundo lugar, todos sobre os quais se puder provar que existe uma infração relacionada ao dinheiro depositado no HSBC na Suíça", publicou, duas horas depois de o GGN questionar, em reportagem, o silêncio das informações em suas mãos.
O jornalista do Uol iniciou a publicação informando os dados,
divulgados aqui, sobre os mais de 8 mil correntistas da filial do banco
em Genebra com algum tipo de vínculo ao Brasil. Divulgou que as
movimentações de cerca de R$ 20 bilhões ocorreram entre 2006 e 2007. E
frisou, reiteradamente, que o responsável pela não publicação dos dados
era o governo brasileiro.
"Não há interesse da administração pública federal comandada pela
presidente Dilma Rousseff em apurar o que ocorreu", afirmou. E
justificou na "minoria de pessoas conhecidas" a denúncia do GGN
sobre a falta de citação de nomes em suas quatro publicações até então
– sendo 3 traduções de materiais estrangeiros e apenas uma com dados
escassos sobre as ligações com o Brasil.
Ao contrário do posicionamento adotado pelos jornalistas do mesmo
grupo ICIJ do mundo inteiro, com alguns exemplos apresentados pela
reportagem, de trazer publicidade a nomes de correntistas com
envolvimento na política, grandes empresários, realeza e figuras
públicas, Fernando Rodrigues explicou que a política editorial do seu
blog e do Uol é de que a lista completa "nunca será publicada", pois
"seria uma invasão de privacidade indevida no caso de pessoas que podem
ter aberto contas no exterior de boa fé, respeitando a lei e pagando
impostos".
A importância de se dar divulgação a esses nomes "não é baseada na
curiosidade em conhecer os segredos dos milionários", já afirmara os
jornalistas chilenos Francisca Skoknic e Juan Andrés Guzmán. O impacto
desses dados vai além.
"Este projeto de jornalismo internacional – que participam mais de
140 jornalistas de 45 países – busca trazer luz sobre o dinheiro
depositado na Suíça, uma jurisdição utilizada pelo alto sigilo sobre os
ativos, que os protege e, em particular, sobre os clientes do HSBC, o
banco que já foi objeto de uma investigação do Senado dos EUA que
revelou que tem sido usado para proteger os fundos de lavagem de
dinheiro do tráfico de drogas, entre outras irregularidades. Além disso,
um grande número de contas estão ligados ao uso de empresas sediadas em
paraísos fiscais, uma das maneiras mais comuns de esconder quem são os
verdadeiros donos”, completaram os jornalistas investigativos que
divulgaram nomes e sobrenomes do alto patrimônio chileno.
Ao invés de esperar uma resposta, em nome de uma suposta ética
editorial, o trabalho de propagação do restante dos jornalistas move,
como consequência, o impacto direto na pressão aos governos, o que está
permitindo recuperar centenas de milhões de dólares em impostos não
pagos.
Mas, apesar de informar em seu blog o interesse em não invadir a
"privacidade indevida" no caso de pessoas de "boa fé", minutos depois
Fernando Rodrigues publicou outro artigo com os primeiros nomes, ainda
sem ter a resposta da ilegalidade de tais contas: "doleiro e
empreiteiros da Lava Jato tinham conta secreta no HSBC da Suíça".
Os dados do Brasil sobre o que pode ser o maior esquema de rombo
fiscal no mundo estão nas mãos de um único jornalista, que deixou claro
os critérios para vazar os dados: os que tiverem "interesse público".
Interesse de que público?
Leia a íntegra da publicação de seu blog:
Por Fernando Rodrigues
As informações se referem a contas mantidas no HSBC na Suíça. O banco abrigou mais de US$ 100 bilhões de 106 mil clientes de 203 países. Os dados se referem aos anos de 2006 e/ou 2007.
No caso do Brasil, são 6.606 contas bancárias (que atendem a 8.667 clientes) e um valor movimentado/depositado (em 2006 e/ou 2007) de cerca de R$ 7 bilhões –o equivalente a cerca de R$ 20 bilhões, um montante próximo ao que o governo da presidente Dilma Rousseff precisa economizar em 2015 para fazer o ajuste fiscal do país.
A imensa maioria dos nomes contidos na listagem brasileira do HSBC da Suíça é desconhecida do grande público. Há uma minoria de pessoas conhecidas. Empresários, banqueiros, artistas, esportistas, intelectuais.
Quais nomes e contas bancárias serão divulgados? Em primeiro lugar, os que tiverem interesse público, e, portanto, jornalístico. Em segundo lugar, todos sobre os quais se puder provar que existe uma infração relacionada ao dinheiro depositado no HSBC na Suíça.
O Blog vem tentando apurar esses dados desde o final do ano passado. Esbarrou na má vontade das autoridades brasileiras, que têm meios para rapidamente identificar eventuais irregularidades.
Uma fração mínima de nomes sob os quais há alguma suspeita foram mostrados ao governo, de maneira reservada. A apuração demorou mais de três meses e continua incompleta. Ou seja, não há interesse da administração pública federal comandada pela presidente Dilma Rousseff em apurar o que ocorreu.
O Blog e o UOL entendem que o governo não pode revelar os nomes de quem cometeu crime fiscal. Mas pode dizer –e a sociedade tem o direito de saber– quantos são os que mantiveram dinheiro de forma irregular no HSBC da Suíça.
Com a falta de interesse e disposição do governo, o Blog está fazendo já há algum tempo uma minuciosa checagem de todas as mais de 8.000 linhas de informações sobre brasileiros correntistas no HSBC da Suíça.
Quando for identificado algum nome que possa estar relacionado a um fato ou atividade de interesse público, o titular da conta bancária será contatado para que possa explicar do que se trata o valor depositado no HSBC. Uma reportagem será publicada a respeito.
A lista completa nunca será publicada? Não, pois seria uma invasão de privacidade indevida no caso de pessoas que podem ter aberto contas no exterior de boa fé, respeitando a lei e pagando impostos.
O ICIJ vai publicar algum dia todas as informações? Não."

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