"Para o professor Wanderley Guilherme, "é obvio que estratégia do governo não está dando certo. É questionada por antigos apoiadores sem conquistar simpatias de adversários tradicionais"
Paulo Moreira Leite, Blog: Paulo Moreira Leite
Logo na primeira linha de um artigo publicado na edição
de Carta Capital que está nas bancas, o professor Wanderley Guilherme
dos Santos faz uma análise dura da situação do governo Dilma Rousseff.
Um dos mais qualificados estudiosos da vida política brasileira desde a década de 1960, com vários ensaios de leitura obrigatória, Wanderley Guilherme foi um eleitor militante da candidatura de Dilma Rousseff. Essa atitude garante uma autoridade especial a suas observações, que sugerem que o governo se encontra numa “enrascada”. Wanderley deu a seguinte entrevista ao blogue:
PERGUNTA — COMO É QUE O GOVERNO ENTROU NESSA ENRASCADA?
WANDERLEY GUILHERME – Creio que a enrascada do governo consiste em que, se não há grupo com poder interessado em sua queda, também não existem apoiadores decididos a sustentá-lo ativamente, não somente em pesquisas de opinião. E não obstante o esforço hercúleo do ex-presidente Lula para manter coesa a coalizão social, não apenas a parlamentar, que apoiou os governos trabalhistas até aqui. Não sei quais são os formuladores da estratégia atual do governo, mas é óbvio que não está dando certo. Está sendo questionada por antigos apoiadores sem conquistar a simpatia de seus tradicionais adversários.
PERGUNTA — ALGUÉM ERROU?
WANDERLEY GUILHERME – Quem foi eleita prometendo idéias (e gente) novas para um governo novo, e suplicou o apoio ativo da esquerda na última semana da campanha – arrancada sem a qual teria perdido a eleição – não tem o direito de pedir silêncio quando surpreende a praticamente todos os setores da esquerda com suas indicações. Não se trata de oposição radical aos nomes indicados, mas de expectativa de que sejam informados de qual trajetória a ser cumprida. A indiferença do governo em relação ao espanto e reclamações de seus eleitores, ao lado de afagos a adversários de ontem, pode ser entendida como abuso de confiança. O governo deve satisfações a quem o elegeu.
PERGUNTA — Por que o senhor fala que o país não tem lideranças democráticas robustas?
WANDERLEY GUILHERME — A campanha eleitoral de 2014, em caminho aberto em 2010, enveredou por atalhos de baixíssimo nível, cópia tal qual das campanhas norte-americanas, contaminando todos os participantes. Ficou difícil, agora, encontrar alguém cuja estatura seja suficiente para apaziguar os ânimos e garantir a estabilidade do governo sem radicalismos partidários. Uma coisa é a estabilidade das instituições — que me parece sólida — e outra a estabilidade do governo, a meu ver precária hoje. A contrapartida da indiferença do governo será a apatia da esquerda. Defender quem? Em nome de que? Isso significa que é real a perspectiva de alta rotatividade nos cargos de nomeação governamental e de dificuldade governativa.
PERGUNTA — COMO ENTENDER O PROTAGONISMO DA POLÍCIA FEDERAL NESTE MOMENTO? WANDERLEY GUILHERME — O protagoniso da Polícia Federal se deve a omissão do governo face aos problemas suscitados pela PF. Não se trata de pessoas ou partidos, mas de um sistema de cumplicidade público-privada que tornou largamente disfuncional a operação do Estado brasileiro. Também não é uma crise essencialmente partidária e muito menos o resumo anedótico que faz de grave problema estrutural um debate epistemológico: sabia ou não sabia?
PERGUNTA — POR QUE ISSO É ANEDÓTICO?
WANDERLEY GUILHERME — Pois é consabido que nada anda no país sem ilícitos cometidos em algum momento do percurso. A audiência não sabe exatemnte quem e de quanto foi o desvio de recursos públicos, mas os participantes das organizações públicas e privadas têm percepção mais precisa. Como é possível que experimentados técnicos nunca tenham se dado conta dos incríveis montantes de dinheiro que eram cobrados por serviços e obras? E a anormalidade da riqueza aparente de diretores? O problema é que os não envolvidos nas negociatas – quando estas se institucionalizam – não têm condições reais de apontar este ou aquele. Há sempre a chantagem de causar prejuízo à instituição e o temor de ficar estigmatizados como dedo duro, sem certeza, ademais, de que as denúncias terão as consequências que deviam ter. O problema não é quem sabia ou não sabia, mas desmontar o sistema que obrigava a quem não pertencia ao esquema a ficar calado, cúmplice passivo e compulsóriio.
PERGUNTA — O QUE DEVERIA SER FEITO?
WANDERLEY GUILHERME — Quem deve liderar esse momento de revisão do estatuto operacional do Estado não é a Policia Federal, mas o governo, cuja omissão, aqui, é a mesma observada no tratamento dado às reações ao método de formação ministerial e do aparato estatal. Responsabilizar o sistema político é trocar um problema por outro e fugir do enfrentamento absolutamente necessário. Não é possível esperar da população brasileira complacência com a continuação – não importa quando tenha começado – dessa fantástica apropriação do patrimônio popular.
PERGUNTA — O senhor foi um dos principais defensores da candidatura Dilma Rousseff em 2014. Foi capaz de defender o governo dela com argumentos e dados claros e consistentes, Está vivendo um ambiente de O sonho acabou?
WANDERLEY GUILHERME – Não, meu sonho não acabou, não. Continuo do mesmo lado e seguro de que ainda falta um bom caminho para tornar o País mais rico e justo. Mas não sou governista nem miltante partidário, sem dever obediência, portanto, senão a minhas opiniões, pelas quais sou responsável."

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