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Economia e a rádio CBN: má fé ou incompreensão?
"Contrariamente
ao que diz a CBN repetidas vezes ao dia, a correção que acaba de ser
feita na Selic não sinalizou aumento da taxa real de juros.
Na ânsia de demonizar o governo Dilma, a rádio
CBN parece não ter limites. Depois de muito bradar por mudanças na
economia, entre as quais aumento dos juros para conter a inflação,
apressa-se agora em afirmar que a decisão de elevar 0,25% na taxa SELIC
contraria as promessas de campanha de Dilma [1]. Na verdade esta formulação contém um duplo equívoco, como se demonstra a seguir.
Para
um economista, qualquer que seja sua filiação ideológica, a taxa que
interessa ao investidor, é a taxa real de juros, isto é aquela que
desconta a inflação do período. Nessa ótica, a recente decisão do Banco
Central apenas corrigiu monetariamente a SELIC, a fim de preservar o
nível real dos juros pagos, mas também dos juros recebidos pelo
Tesouro. Com SELIC em 11,25 e inflação anual medida pelo IPC em 6,7%, a
taxa real de juros, ao ano, está em 4,55%.
Contrariamente
portanto ao que informa a CBN repetidas vezes ao dia, a correção que
acaba de ser feita não sinalizou aumento da taxa real, mas tão somente
um reajuste frente à inflação constatada.
Em matéria de
inflação, a CBN também demonstra fraca memória ou incompreensão. Joga
toda a responsabilidade sobre o Estado, o Governo, desconhecendo a
influência da desvalorização cambial sobre o reajuste dos preços
internos. Ora, justamente aí tem consistido o brilhantismo da gestão de
Guido Mantega à frente da Fazenda. A partir de 2011, o maior êxito de
sua gestão consistiu em sustentar a desvalorização cambial, que até
agora ficou em torno de 50%, sem maiores alterações no regime de metas
de inflação. Fato inédito em nossa recente histórica econômica.
Como
afirma em entrevista o ex-ministro Delfim Neto, nossa “indústria estava
sendo destruída por uma valorização do câmbio que primeiro roubou sua
demanda externa, depois roubou a interna.” (DELFIM NETO, entrevista dada
a Érica Fraga, FSP/02-11-2014). Está certo Delfim, e por isto se deve
considerar benéfica a desvalorização cambial dos últimos 3 anos, apesar
dos efeitos inflacionários.
Tampouco o descumprimento das metas
fiscais em 2014 deve ser visto como imperícia. Pelo contrário, sua
ocorrência justifica-se pela prioridade que o Governo atribuiu ao
objetivo, justo, de sustentar o nível de emprego, e o fez com êxito. A
ampliação da dívida pública que deve resultar da incapacidade de
realizar, neste ano, a meta de superávit primário é perfeitamente
suportável, frente à redução já obtida na dívida líquida, que caiu de
80% para 35% do PIB, no período 2002-2014. Se houver neste ano um
aumento modesto, de 35% para 38%, para compensar o déficit nominal,
mesmo assim permanecerá confortável a situação das contas públicas
brasileiras.
Surpreende, no entanto, que a CBN não divulgue, ou
apenas o faça raramente, aquele que pode ser considerado o maior
problema da economia brasileira na atualidade – a sangria nas contas
externas do Brasil, em razão de gastos improdutivos no exterior e das
remessas de lucros, juros e dividendos. Do déficit total nas
transações correntes em 2014, que se prevê atingir a soma de US$ 80
bilhões (cerca de R$ 192 bilhões e 3,5% do PIB), mais da metade é
proveniente dos dois itens citados – viagens internacionais e
remuneração de capitais estrangeiros.
É ilusão pensar que o
déficit de transações correntes possa ser compensado por aumento da
poupança doméstica, como sugerem analistas e agências internacionais.
Pois enquanto o déficit é feito em divisas – dólar, euro ou outras -, a
poupança interna se faz em reais. A compensação sugerida é inviável.
Mas disto não se fala, a CBN cala e a opinião pública brasileira
desconhece. Porque, afinal de contas, enfrentar este problema exige
desafiar a livre circulação de capitais e limitar a remessa de divisas
para o exterior, nos termos propostos por Getúlio Vargas e João Goulart,
expressos na Lei 4.131 de 3-09-1962, com as devidas atualizações
requeridas pelas atuais condições econômicas e políticas.
A
sugestão de Delfim Neto para o déficit das transações correntes, na
entrevista citada, é que multipliquem os incentivos às multinacionais
instaladas no Brasil, para que elas exportem mais produtos industriais e
ampliem sua integração nas cadeias produtivas da economia mundial.
Mas, esclarece ele, para tanto é necessário garantir o respeito aos
contratos, à política cambial em curso e não fazer exigências de
conteúdo nacional frente aos imperativos da produtividade! É um ponto
de vista que merece reflexão e debate. Importante é que nessa
entrevista o ex-ministro recoloca o problema nos devidos termos e define
com clareza o que deve, ou deveria constituir o centro dos debates na
atualidade, na direção contrária ao que faz a CBN.
(*) Economista, doutora em políticas públicas pela UERJ, Rio de Janeiro, 02-09-2014
[1] Opinião expressa no programa radiofônico deste domingo, 2 de novembro, entre 8h e 10 hs.
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