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Brics: um ensaio de Bretton Woods no Ceará?
"A
expectativa é de que se oficialize nesse encontro, em Fortaleza, a
criação de um fundo de reservas contingente, com valor inicial de US$
100 bilhões.
O economista Paulo Nogueira Batista Jr, diretor executivo do Brasil e de
mais dez países no FMI, costuma dizer que se tudo der certo na Cúpula
de líderes dos Brics, que se reúne nesta terça-feira, em Fortaleza, a
capital cearense passará à história como um ensaio de Bretton Woods do
século XXI.
A expectativa é de que se oficialize nesse encontro a
criação de um fundo de reservas contingente, com valor inicial de US$
100 bilhões (US$ 41 bilhões da China; Brasil, Rússia e Índia, com US$ 18
bilhões cada; e a África do Sul, com US$ 5 bilhões).
Trata-se de uma subscrição virtual, uma espécie de pacto de ajuda mútua.
A
partir de sua assinatura os cinco participantes se comprometem a
garantir um socorro recíproco em caso de desequilíbrio cambial grave,
motivado , por exemplo, por uma fuga de capitais, como a que se ensaiou
no colapso das subprimes, em 2008.
Outra iniciativa que deve ser
oficializada em Fortaleza é a criação do Novo Banco de Desenvolvimento
(NBD) , que terá um fundo inicial de US$ 50 bilhões, subscrito em partes
iguais pelos cinco integrantes do encontro.
A ideia é que o NBD
possa operar globalmente, para além do perímetro do grupo, financiando
projetos de infraestrutura em todo o mundo pobre e em desenvolvimento.
Seria, assim, a principal ferramenta de influencia geopolítica dos Brics
na construção de um novo polo de liderança mundial.
A sede do
banco provavelmente será em Xangai, mas o Brasil pleiteia a presidência
do novo organismo que deverá realizar seu primeiro financiamento em
2016.
Se o fundo de reservas guarda semelhanças com a função
original do FMI, decidida em 1944 na cidade norte-americana de Bretton
Woods, o Novo Banco de Desenvolvimento seria a contrapartida bricsniana
do Banco Mundial.
As instituições originais surgiram da
necessidade de se proteger as economias dos desequilíbrios devastadores
da lógica capitalista, cujo desdobramento totalitário nos anos 30/40
cobraria da humanidade o custo sangrento de uma Segunda Guerra.
Bretton
Woods foi um pedaço dessa tentativa de reconstruir a institucionalidade
destruída pelo colapso bélico, erguendo amortecedores que diluíssem a
repetição de suas causas no futuro.
O papel coordenador do Estado
no desenvolvimento tornar-se-ía possível a partir daí, graças à
reconstrução de uma ordem econômica internacional regulada e
estabilizada pelos acordos assinados em 1944.
A meta era
alcançar o pleno emprego, a estabilidade dos preços internacionais e
certa paridade fixa entre as moedas –com ajustes cambiais periódicos,
sem golpear o comércio com a guerra protecionista.
Foi esse mundo que os 730 delegados de 44 países reunidos em Bretton Woods idealizaram depois de três semanas de debates.
Contrariando
visões mais arrojadas como a de Keynes, que defendia a criação de uma
moeda comum independente, o bancor, convencionou-se que o dólar faria o
papel de referência cambial básica, ancorado em uma paridade fixa de US$
35 por onça-troy ( 31,1 gramas de ouro).
Na retaguarda funcionaria o Banco Mundial, como ferramenta auxiliar da reconstrução e do desenvolvimento.
O
mundo imaginado em Bretton Woods funcionou até agosto de 1971, quando
o governo norte-americano, afogado em gastos imperiais impostos por
guerras e intervenções, mas premido também pela própria concorrência
comercial que o sucesso de Bretton Woods ajudou a fomentar, rompeu
unilateralmente o vínculo dólar/ouro negociado vinte e sete anos antes.
A ruptura da ‘paridade-mãe’ desencadearia um efeito dominó devastador.
Ajustes cambiais cada vez mais agressivos e contraditórios instauraram o salve-se quem puder no sistema monetário internacional.
Eram
os dobrados fúnebres do chamado ‘anos dourados do capitalismo’ –um
período de relativa estabilidade e crescimento contínuo, ancorado em uma
ordem pós-guerra que se esgotara, a exemplo do poder absoluto da
potência hegemônica que hierarquizara o mundo sob as asas –ou garras—até
então.
Um sistema monetário internacional marcado pela
mobilidade de capitais e a desordem cambial, feita de paridades
flutuantes e unilaterais, não gera apenas incerteza contábil.
Oscilações
bruscas no valor da moeda de um país –impostas, não raro, por
mudanças internacionais alheias a sua vontade-- alteram as relações de
trocas no comércio exterior; destroem parques fabris (vide o efeito
asiático sobre a industrialização brasileira); devastam empregos e
podem, da noite para o dia, liquefazer o poder de compra de nações
inteiras ceifando a subsistência e o futuro de milhões de famílias e
assalariados.
Num mundo desprovido de qualquer outro poder
reconhecido, que não o Conselho de Segurança da ONU, a supremacia das
finanças desreguladas substituiu o frágil espaço da coordenação e da
cooperação pela ideologia dos mercados autorreguláveis, consagrada no
credo neoliberal.
A crise de 2008, antes de sepultar, agravou a
instabilidade e a entropia intrínsecas à lógica de um capitalismo
afogado em sua própria liberdade.
É nesse ambiente conturbado, em
que a mobilidade dos capitais instituiu um poder sem paralelo, dotado
de turquesas para impor interditos e obrigações a Estados, partidos e
projetos de desenvolvimento, que deve ser avaliada a importância da
cúpula dos Brics, que se reúne nesta 3ª feira, em Fortaleza.
Sua
real dimensão só pode ser efetivamente ponderada a partir da
compreensão histórica da desordem planetária implantada pelo
capitalismo, em 40 anos de esfarelamento de Bretton Woods.
Leia a
seguir uma análise do economista Luiz Gonzaga Belluzzo sobre a
transição em curso no sistema econômico internacional. Escrita em 1995,
antes, portanto, da crise das subprimes, ela antecipa com clareza o
desfecho da desordem que a reunião dos Brics tenta agora superar.
O declínio de Bretton Woods e a emergência dos mercados “globalizados”
Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo
Ao
final da Segunda Guerra Mundial, o projeto de sociedade democrática
discutido entre as forças políticas que se opuseram ao nazi-fascismo
foi construído à luz de lembranças terríveis. Os anos 20 e 30 deste
século revelaram um capitalismo cada vez mais poderoso em sua capacidade
de criar e destruir, de transformar a concorrência em monopólio, de
praticar o protecionismo, de arrasar as moedas nacionais, de causar o
desemprego de homens e a paralisação das máquinas.
Revelaram
também estes anos loucos e trágicos que as sociedades podem reagir à
violência cega e desagregadora das leis econômicas com as armas da
brutalidade, do voluntarismo político e da impiedosa centralização das
decisões. O fascismo teve muitas máscaras, mas é inegável que em sua
essência ele representou o drama da vingança do político contra as
pretensões de autonomia do econômico. Era preciso subtrair a produção e a
troca de mercadorias ao império das normas emanadas do diktat do ganho
monetário e submetê-las à vontade do Fuhrer e às necessidades do povo.
O
regime econômico fascista foi um monstruoso movimento “populista”, uma
rebelião contra “a objetividade” das leis econômicas e suas
conseqüências funestas sobre as condições de vida dos indivíduos.
Forças políticas importantes que combateram o fascismo, sabiam muito bem
que a sobrevivência da democracia não dependia apenas da restauração
das instituições e dos mecanismos de representação popular, do
equilíbrio de poderes e do controle público dos atos das autoridades.
A
experiência negativa dos anos 20 e 30 deixou uma lição: o capitalismo
da grande empresa e do capital financeiro levaria inexoravelmente a
sociedade ao limiar de outras aventuras totalitárias, caso não fosse
constituída uma instância pública de decisão capaz de coordenar e
disciplinar os megapoderes privados.
A ameaça à liberdade, dizia
Karl Mannhein, não vem de um governo que é “nosso”, que elegemos e que
podemos derrubar, senão das oligarquias sem responsabilidade pública. As
coalizações de interesses e as combinações empresariais típicas do
capitalismo contemporâneo têm poder para adotar medidas arbitrárias,
como o racionamento da produção, greve de investimentos, aumentos
abusivos de preços, controle de patentes, de recursos e de mercados.
As
forças sociais e os homens de poder incumbidos de reconstruir as
instituições capitalistas do pós-guerra estavam prenhes desta convicção.
Para
evitar a repetição do desastre era necessário, antes de tudo,
constituir uma ordem econômica internacional capaz de alentar o
desenvolvimento, sem obstáculos, do comércio entre as nações, dentro de
regras monetárias que garantissem a confiança na moeda-reserva, o
ajustamento não deflacionário do balanço de pagamentos e o abastecimento
de liquidez requerido pelas transações em expansão.
Tratava-se,
portanto, de erigir um ambiente econômico internacional destinado a
propiciar um amplo raio de manobra para as políticas nacionais de
desenvolvimento, industrialização e progresso social. A construção e a
gestão desse ambiente internacional favorável encontraram resposta
adequada nas reformas promovidas nas instituições e nas políticas dos
Estados Nacionais. As novas instituições e as políticas econômicas do
Estado Social estavam comprometidas com a manutenção do pleno emprego,
com a atenuação, em nome da igualdade, dos danos causados ao indivíduo
pela operação sem peias do “mecanismo econômico”. Alliez (1988) diz, com
razão, que durante mais de duas décadas realizou-se a criação de um
mundo fundado sobre o direito ao trabalho, que tinha como objetivo o
pleno emprego, o crescimento dos salários reais.
“Promover esta
dinâmica, onde o crescimento dos salários ocorre em benefício dos lucros
que eles engendravam, implica uma modificação do papel do Estado. Este
deve, não apenas ratificar e garantir os acordos de produtividade, mas
também manter, quando não planificar, a dinâmica revestida por eles:
por um lado estimulando o consumo dos assalariados através do aumento
das transferências sociais e, por outro, sustentado os investimentos
produtivos - controle das taxas de juros e política de investimentos
públicos”.
A concepção de um desenvolvimento nacional, no marco
de uma ordem internacional estável e regulada não era uma fantasia
idiossincrática, mas decorria do “espírito do tempo”, forjado na
reminiscência da experiência terrível das primeiras quatro décadas deste
século.
Tampouco era fortuito o papel atribuído à ação do Estado
no estímulo ao crescimento, na prevenção das instabilidades da economia
e na correção dos desequilíbrios sociais.
Os acontecimentos que
vêm se manifestando no último quarto de século parecem indicar que a
era keynesiana - os anos dourados do crescimento capitalista - foi
sucedida, desde o começo dos 70, por turbulências e instabilidades que a
história poderá revelar tão formidáveis quanto as que irromperam nas
décadas de 20 e 30.
O fato é que o conjunto das relações
comerciais, produtivas, tecnológicas e financeiras que nasceu do acordo
de Bretton Woods e prosperou sob a liderança americana, não resistiu ao
próprio sucesso. Os Estados Unidos e sua economia cumpriram, durante os
primeiros vinte anos do pós-guerra a função hegemônica que decorria de
sua supremacia industrial, financeira e militar. Sob o manto deste
hegemonia foram reconstruídas as economias da Europa e do Japão e
criadas as condições para o avanço das experiências de industrialização
na periferia do capitalismo.
Antes porém de entrar na
avaliação do desempenho dos sistemas de Bretton Woods e discutir as
razões de sua crise, cabe algumas considerações sobre o papel do Fundo
Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial.
As
instituições multilaterais de Bretton Woods - o Banco Mundial e o FMI -
nasceram com poderes de regulação inferiores aos desejados inicialmente
por Keynes e Dexter White, respectivamente representantes da Inglaterra e
dos Estados Unidos nas negociações do acordo, que se desenvolveram
basicamente , entre 1942 e 1944.
Harry Dexter White pertenceu à
chamada ala esquerda dos New Dealers e foi por isso, depois da guerra,
investigado duramente pelo Comitê de Atividades Anti-Americanas do
Congresso. Seu plano inicial previa a constituição de um verdadeiro
Banco Internacional e de um Fundo de Estabilização.
Juntos o
Banco e o Fundo deteriam uma capacidade ampliada de provimento de
liquidez ao comércio entre os países-membros e seriam mais flexíveis na
determinação das condições de ajustamento dos déficits do balanço de
pagamentos. Isso assustou o establishiment americano. Uns porque
entendiam que estes poderes limitavam seriamente o raio de manobra da
política econômica nacional americana. Outros porque temiam a tendência
“inflacionária” desses mecanismos de liquidez e de ajustamento.
Keynes
propôs a Clearing Union, uma espécie de Banco Central dos bancos
centrais. A Clearing Union emitiria uma moeda bancária, o bancor , ao
qual estariam referidas as moedas nacionais. Os déficits e superávits
dos países corresponderiam a reduções e aumentos das contas dos bancos
centrais (em bancor ) junto à Clearing Union.
Uma peculiaridade
do Plano Keynes era a distribuição mais eqüitativa do ônus do
ajustamento dos desequilíbrios dos balanços de pagamentos entre
deficitários e superavitários. Isto significava, na verdade, dentro das
condicionalidades estabelecidas, facilitar o crédito aos países
deficitários e penalizar os países superavitários.
O propósito de
Keynes era evitar os ajustamentos deflacionários e manter as economias
nacionais na trajetória do pleno-emprego. A proposta também sofreu
sérias restrições dos Estados Unidos, país que emergiu da segunda guerra
como credor do resto do mundo e superavitário em suas relações
comerciais com os demais. O enfraquecimento do Fundo, em relação às
idéias originais, significou a entrega das funções de regulação de
liquidez e de emprestador de última instância ao Federal Reserve.
O
sistema monetário e de pagamentos que surgiu do Acordo de Bretton Woods
foi menos “internacionalista” do que desejariam os que sonhavam com uma
verdadeira “ordem econômica mundial”.
O problema do FMI não é
seu poder excessivo, mas sua deplorável submissão ao poder e aos
interesses dos Estados Unidos. Muito se tem escrito sobre o papel dos
Estados Unidos na prosperidade do pós-guerra. Alguns autores procuraram
definir com maior precisão as condições de estabilidade do sistema de
Bretton Woods: o benefício da seignorage , desfrutado pelo país emissor
da moeda reserva (os EUA) era condição para que os países-membros
executassem, dentro das regras, políticas “keynesianas” internas e
estratégias neo-mercantilistas.
Padoan (1986) sugere que, para
os Estados Unidos, os benefícios da seignorage se desdobravam em: a)
objetivos estratégicos: os americanos suportaram a maior parte dos
custos da aliança militar formalizado no tratado do Atlântico Norte e
puderam fazê-lo em grande medida, graças à condição de emissores da
moeda reserva internacional; b) objetivos econômicos: a seignorage
permitiu a expansão da indústria americana e de seu estilo tecnológico
(o fordismo), sobretudo através do investimento direto; c) objetivos
financeiros: a posição de “banqueiro internacional” dos Estados Unidos
concedeu um enorme espaço para o crescimento dos bancos americanos.
Ao
perseguir estes objetivos, a economia americana funcionava - Minsky
assinalou com correção - como “reguladora” do sistema capitalista. Isto
significa que os Estados Unidos cumpriam o papel de fonte autônoma de
demanda efetiva e emprestador de última instância. Para os países
membros do sistema hegemônico esta função reguladora era uma garantia
ex-ante de políticas nacionais expansionistas continuadas e estratégias
de crescimento neo-mercantilistas. Por isso, os Estados Unidos e sua
economia começaram a sentir os efeitos da ascensão dos
parceiros/competidores. Japão e Alemanha, por exemplo, reconstruíram
sistemas industriais e empresariais mais novos e mais permeáveis à
mudanças tecnológica e organizacional e os novos industrializados da
periferia ganharam maior espaço no volume crescente do comércio mundial.
Não
por acaso, o saldo negativo do balanço de pagamentos americano mostrou,
a partir do início dos 70, uma participação cada vez mais importante do
déficit comercial. Durante os anos 50 e 60 a balança comercial
americana foi sistematicamente superavitária à despeito da posição
deficitária do balanço global.
As inevitáveis pressões sobre o
dólar se intensificaram e já em 1971 Nixon suspendeu a conversibilidade
do dólar a uma taxa fixa com o ouro.
Em 1973 o sistema de paridades fixas, mas ajustáveis, de Bretton Woods foi substituído por um sistema de flutuações sujas.
Os
Estados Unidos não foram capazes de sustentar a posição do dólar como
moeda-padrão, na medida em que uma oferta “excessiva” de dólares brotava
do desequilíbrio crescente do balanço de pagamentos, agora sob a
pressão de um déficit comercial. Minsky e outros autores sustentam que o
“dólar standard ”, à semelhança dos sistemas nacionais, era na verdade,
um sistema monetário de crédito. Nesse sistema, o déficit global do
balanço de pagamentos determinava a quantidade do crédito e a situação
positiva da balança comercial garantia a qualidade dos fluxos em dólares
colocados à disposição de outros países, empresas e indivíduos.
Foi,
aliás, sob o signo da desorganização financeira e monetária que se deu a
formidável expansão do circuito financeiro “internacionalizado”, nos
anos 70.
A crise do sistema de regulação de Bretton Woods,
permitiu e estimulou o surgimento de operações de empréstimos/depósitos
que escapavam ao controle dos bancos centrais. A fonte inicial dessas
operações “internacionalizadas” foram certamente os dólares que excediam
a demanda dos agentes econômicos e das autoridades monetárias
estrangeiras. O primeiro choque do petróleo e a famosa reciclagem
privada dos petrodólares ampliaram as bases da oferta de crédito
internacional e empurraram o sistema para a zona de riscos crescentes.
De qualquer maneira, a euforia do endividamento externo que deu
sobre-fôlego a muitos projetos de industrialização e de crescimento
industrial (tanto na periferia do capitalismo, quanto na área
socialista), já era resultado da fadiga e das contradições que atingiram
os mecanismos básicos que garantiam, simultaneamente, a estabilidade e o
crescimento das economias centrais.
O circuito financeiro
internacionalizado e operado pelos grandes bancos comerciais, à margem
de qualquer regulamentação ou supervisão dos bancos centrais acentuou
sobremaneira a tendência à super expansão dos empréstimos e o
progressivo rebaixamento da qualidade do crédito concedido.
Como
já foi dito em outra ocasião (Tavares e Belluzzo, 1986), o circuito
financeiro internacional passou a funcionar como um sistema de “crédito
puro” em suas relações com governos e empresas, com criação endógena de
liquidez e altos prêmios de risco. Os agentes endividados, por sua vez,
aceitavam qualquer taxa de juros para a rolagem e ampliação de suas
dívidas.
A internacionalização financeira surgida no final dos
60 expressou-se através da crescente supremacia da função de meio de
financiamento e de pagamento do dólar em relação à sua função de
standard universal. O conflito entre as duas funções, que devem
coexistir pacificamente num sistema monetário estável, chegou no final
dos anos 70 a suscitar ensaios da substituição do dólar por Direitos
Especiais de Saque (criados em 1967) emitidos pelo FMI e lastreados em
uma “cesta de moedas”.
As ameaças ao dólar foram, no entanto,
contidas pelo gesto unilateral dos Estados Unidos que, no final de 1979,
subiram abruptamente as taxas de juros com o propósito de preservar a
função de reserva de sua moeda nacional.
Se alguém desejasse
marcar uma data para a derrocada final da arquitetura de Bretton Woods
teria alguma chance de acertar, escolhendo outubro de 1979. Não se trata
apenas de constatar que os Estados Unidos deixaram de exercer o papel
de “país residual”, isto é, de país capaz de amortecer as tensões -
tanto as inflacionárias quanto as recessivas - do sistema funcionando
como fonte autônoma de demanda efetiva e lender of last resort .
Ao
impor a regeneração do papel do dólar como reserva universal através de
uma elevação sem precedentes das taxas de juros, os Estados Unidos
deram o derradeiro golpe no estado de convenções que sustentara a
estabilidade relativa da era keynesiana.
Durante os anos 80 a
economia mundial foi afetada por flutuações amplas nas taxas de câmbio
das moedas que comandam as três zonas monetárias (dólar, iene e marco).
Estas flutuações nas taxas de câmbio foram acompanhadas por uma extrema
volatilidade das taxas de juros. Na verdade, as flutuações das taxas de
câmbio, supostamente destinadas a corrigir desequilíbrios do balanço de
pagamentos e dar maior autonomia às políticas domésticas, foram
desestabilizadoras. Isto porque a crescente mobilidade dos capitais de
curto prazo obrigou a seguidas intervenções da política monetária,
determinando oscilações entre taxas de juros das diversas moedas e
criando severas restrições a ação da política fiscal.
É neste
ambiente de instabilidade financeira e “descentralização” do sistema
monetário internacional que ocorrem as transformações financeiras
conhecidas pelas designações genéricas de globalização ,
desregulamentação e securitização .
Estas transformações foram
amadurecendo ao longo de um período de crescimento interrompido por
recessões relativamente suaves e por intervenções “anti-cíclicas” dos
governos. Daí duas conseqüências importantes podem ser assinaladas: a)
foram evitados os processos agudos de desvalorização de dívidas ( debt
deflation) ; e b) a partir de 1975 cresceu proporcionalmente o peso e a
importância da dívida pública americana na composição dos portfólios
privados. Nos anos 80, a ampliação dos dois déficits-orçamentário e
comercial dos Estados Unidos foi um fator importante para dar um segundo
impulso e uma nova direção ao processo de globalização financeira. Na
prática, a ampliação dos mercados de dívida pública constituíram a base
sobre a qual se assentou o desenvolvimento do processo de securitização.
Isto não apenas porque cresceu a participação dos títulos americanos na
formação da riqueza financeira demandada pelos agentes privados
americanos e de outros países, mas também porque os papéis do governo
dos Estados Unidos são os produtos mais nobres e seguros dos mercados
integrados.
A expansão da posição devedora líquida
norte-americana permitiu o ajustamento, sem grandes traumas, das
carteiras dos bancos, na medida em que os créditos desvalorizados dos
países em desenvolvimento foram sendo substituídos por dívida emitida
pelo Tesouro Nacional aos Estados Unidos.
Estamos tentando
argumentar que a evolução da crise do sistema de crédito
internacionalizado e as respostas dos Estados Unidos ao enfraquecimento
do papel do dólar criaram as condições para o surgimento de novas formas
de intermediação financeira e para o desenvolvimento de uma segunda
etapa da globalização . Esse processo de transformações na esfera
financeira pode ser entendido como a generalização e a supremacia dos
mercados de capitais em substituição à dominância anterior do sistema de
crédito comandado pelos bancos.
Os mercados financeiros, de
maneira geral, tendem a individualizar as perdas, isto é, a descarregar
sobre os agentes privados o risco do inadimplemento ou de iliquidez.
Isto significa que estas formas financeiras são intrinsecamente
deflacionárias.
Dito de outra forma: as tensões de iliquidez ou
de inadimplemento que surgem em algum ponto do sistema são “resolvidas”
através da queda de preços dos instrumentos financeiros. Estas
características contrastam com as tendências “inflacionárias” implícitas
no sistema de crédito em que as situações de iliquidez e possibilidade
de “quebra” são enfrentadas pelo banco central através do redesconto ou
de ações de last resort .
Por isso mesmo, nos novos mercados
financeiros a informação elaborada pelas agências de avaliação de
crédito tornou-se um elemento fundamental na decisão dos investidores.
Isto reforça, no caso dos países em desenvolvimento, a tendência a
tornar o crédito mais seletivo, privilegiando as empresas internacionais
ou aquelas capazes de gerar receita em moeda estrangeira. Estes
“novos” mercados teriam a virtude de combinar as vantagens da melhor
circulação da informação, da redução dos custos de transação e da
distribuição mais racional do risco.
A teoria dos “mercados
eficientes” pretende, enfim, ensinar que todas as informações relevantes
sobre os fundamentals da economia estão disponíveis em cada momento
para os participantes do mercado. E que, na ausência de intervenção dos
governos, a ação racional dos agentes seria capaz de orientar a melhor
distribuição dos recursos, entre os diferentes ativos, denominados em
moedas distintas.
Na prática o que se assistiu, mais uma vez, no
caso do México e de outros mercados emergentes foi ao espetáculo do
“erro persistente” expresso nas avaliações formuladas pelos mercados e
pelas agências especializadas na classificação dos devedores. O
comportamento dos investidores correspondeu muito mais - tanto na
entrada quanto na saída - ao que Keynes chamou de instinto de manada.
A
história se repete. Mas ainda são fracas as vozes que clamam pela
reconstituição de uma verdadeira ordem econômica internacional.
Os
fanáticos do livre mercado se recusam a compreender que a ordem
mercantil está seriamente ameaçada quando inexistem regras e
instituições monetárias centralizadas capazes de garantir um mínimo de
previsibilidade às decisões privadas.
Reexaminadas à distância
de mais de cinqüenta anos, as concepções de Keynes e de Dexter White
sobre as instituições e as regras que deveriam presidir uma verdadeira
ordem econômica internacional parecem inspiradas numa visão pessimista
acerca das virtudes do mercado auto-regulado e particularmente negativa
em relação à movimentação livre dos capitais de curto prazo.
Ainda
que o sistema de regras e de instituições de Bretton Woods tenha na
verdade se revelado apenas uma sombra da realidade imaginada pelos dois
homens públicos, hoje ninguém discute o caráter singular do período de
expansão capitalista do pós- guerra, até meados dos anos 70.
Estudos
recentes demonstram que nenhuma outra etapa do desenvolvimento
capitalista apresentou, nem vem apresentando, resultados tão favoráveis
no que diz respeito às taxas de crescimento do produto, salários reais,
comportamento da inflação e estabilidade das taxas de juros e de
câmbio. No entanto, as mudanças tecnológicas, nas formas de
concorrência, na organização e na estratégia da grande empresa e, por
fim, na operação dos mercados financeiros, ocorridas nas duas últimas
décadas, parecem justificar a visão oposta, a que celebra a supremacia
dos mecanismos econômicos - a lógica do mercado - sobre as vãs
tentativas de disciplinar as forças simultaneamente criadoras e
destrutivas do capitalismo.
Depois de algum tempo encapsuladas
pela sociedade e pelo Estado, as tendências fundamentais deste regime de
produção estão aí e executam a sua vingança: vigorosa economia de tempo
e desvalorização do trabalho; e intensificação da concorrência à escala
planetária. Neste processo de mundialização da concorrência
desencadeou-se uma nova onda de centralização de capitais que se
apresenta sob a forma de uma crescente dispersão espacial das funções
produtivas e terceirização das funções acessórias ao processo produtivo,
acompanhadas de uma violenta concentração das decisões e da circulação
de informações no “cérebro” da grande organização.
O predomínio e
a capacidade de controle da grande empresa sobre os mercados encontram
ambiente favorável no desenvolvimento da nova finança.
Os
mercados de capitais são mais sensíveis à avaliação do risco, o que
determina uma maior seletividade na escolha dos papéis oferecidos à
consideração dos gestores de carteira. Ao mesmo tempo, o caráter
globalizado dos mercados permite às empresas o acesso amplo aos
mecanismos de hedge e de proteção contra as flutuações das taxas de
câmbio e variações nas condições de crédito nos diversos países.
A
centralização do controle capitalista, a busca incessante, imposta pela
concorrência, da redução do tempo de trabalho socialmente necessário e o
caráter crescentemente “patrimonialista” e volátil dos mercados que
transacionam direitos de propriedade e títulos de crédito são processos
que se reforçam mutuamente para produzir resultados muito distintos
daqueles observados na chamada era keynesiana.
Os ciclos de
prosperidade e depressão são mais curtos, as taxas de investimento são
sensivelmente mais modestas, o desemprego estrutural se amplia e é cada
vez mais estreito o intervalo entre os distúrbios nos mercados
financeiros e cambiais. Quanto ao Estado Nacional, ninguém duvida de
que sua ação econômica vem sendo severamente restringida: assiste
impotente ao desdobramento das estratégias de localização e de divisão
interna do trabalho da grande empresa e está cada vez mais à mercê das
tensões geradas nos mercados financeiros, que submetem a seus caprichos
as políticas monetária, fiscal e cambial.
Mais do que por seu
caráter global a nova finança e sua lógica tornaram-se decisivos por sua
capacidade de impor vetos às políticas macroeconômicas. Este poder de
veto dos mercados financeiros se impõe a todas as economias ainda que de
forma diferenciada. Os Estados Unidos, por exemplo, emissores e
gestores da moeda reserva, dispõem de maior raio de manobra para
executar políticas fiscais e monetárias expansionistas, desde que
aceitem o risco permanente de ataques especulativos contra o dólar e
administrem adequadamente as tensões que se manifestam através da
elevação imediata das taxas de juros de longo prazo, quando o
crescimento é julgado “excessivo” pelos mercados.
Na outra ponta
do espectro, países de “moeda fraca” não conseguem escapar das
situações de instabilidade senão atrelando as respectivas moedas ao
curso de uma divisa estrangeira, renunciando ao mesmo tempo a qualquer
pretensão de determinar o rumo das políticas fiscal e monetária. A
disciplina imposta pelos mercados financeiros, cujos movimentos de
antecipação podem destruir a precária estabilidade, acaba inibindo toda e
qualquer tentativa de executar políticas ativas, destinadas a promover o
crescimento.
Os efeitos mais importantes destas transformações
têm sido, por toda a parte, a decadência econômica de muitas regiões, o
crescimento do desemprego estrutural, a proliferação de formas de
precarização do emprego, e o aumento da desigualdade.
A estas
forças negativas o Estado e a sociedade não podem responder com ações
compensatórias de outros tempos porque nos mercados globalizados, cresce
a resistência à utilização de transferências fiscais e previdenciárias,
aumentando ao mesmo tempo as restrições à capacidade impositiva e de
endividamento do setor público.
Ao tornar mais livre o espaço de
circulação da riqueza e da renda dos grupos integrados, a globalização
desarticulou a velha base tributária das políticas keynesianas e
submeteu a capacidade de endividamento do Estado ao poder de veto dos
mercados financeiros.
Além disso, a ação do Estado,
particularmente sua prerrogativa fiscal, vem sendo contestada pelo
intenso processo de homogeneização ideológica de celebração do
individualismo que se opõe a qualquer interferência no processo de
diferenciação da riqueza, da renda e do consumo efetuado através do
mercado capitalista.
A ética da solidariedade é substituída pela
ética da eficiência e, desta forma, os programas de redistribuição de
renda, reparação de desequilíbrios regionais e assistência a grupos
marginalizados têm encontrado forte resistência dentro das sociedades.
Não há dúvida de que este novo individualismo tem sua base social
originária na grande classe média produzida pela longa prosperidade e
pelos processos mais igualitários que predominaram na era keynesiana.
Hoje
o novo individualismo encontra reforço e sustentação no aparecimento de
milhões de empresários terceirizados e autonomizados, criaturas das
mudanças nos métodos de trabalho e na organização da grande empresa.
A
ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e
integrados e como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos.
Estas duas percepções convergem na direção da “deslegitimação” do poder administrativo e na desvalorização da política.
Aparentemente
estamos numa situação histórica em que a “grande transformação” ocorre
no sentido contrário ao previsto por Polanyi (1980): a economia trata de
se libertar dos grilhões da sociedade.
Resta saber que respostas
a sociedade está preparando para dar às façanhas da economia
desentranhada e apenas limitada por suas próprias leis de movimento."
(*) Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo /1995
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