Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa
"A violência, em algumas de suas muitas formas, é um dos temas
dominantes na imprensa na semana que se inicia. A brutal revelação de
que o sistema carcerário do Maranhão não é melhor do que a maioria das
outras prisões brasileiras produz uma enxurrada de textos com as
obviedades que se repetem a cada rebelião. Voltam às páginas as mesmas
opiniões sobre falta de investimento, lentidão da Justiça e ineficiência
da reclusão como forma de coibir o crime.
A questão do sistema penitenciário já é, de si, bastante complexa.
Então junta-se ao tema geral a volta das chacinas, modalidade
tipicamente paulista de lidar com a violência: suspeita-se que as doze
mortes ocorridas na cidade de Campinas em apenas quatro horas tenham
sido produzidas por policiais militares, em represália pelo assassinato
de um soldado, baleado numa tentativa de assalto.
Para completar o quadro, autoridades e administradores de shopping
centers acabam por criminalizar a prática do “rolezinho”, espécie de happening cultural criado por adolescentes da periferia paulistana para suprir a falta do que fazer nas férias.
Os três eventos, juntados nas edições de terça-feira (14/1), demonstram
a dificuldade que tem a imprensa para compreender certos fenômenos do
nosso tempo. De resto, o espanto da mídia tradicional também reproduz a
distância que se criou entre a sociedade brasileira e as entidades que
deveriam representá-la.
São acontecimentos cujas raízes estão imbricadas entre si, e suas conexões podem ser pesquisadas no noticiário dos jornais.
Nos presídios paulistas, a onda de motins e assassinatos que
perturbaram o mandato do falecido governador Mário Covas Jr. foi
“resolvida” em 2002, com a eliminação física de líderes de facções
criminosas e a entrega do sistema penitenciário ao grupo conhecido como
Primeiro Comando da Capital.
A consolidação do poder do PCC nas comunidades pobres, de onde o Estado
se retirou há décadas, deixa os jovens à mercê do arbítrio dos bandos
de criminosos e de policiais corruptos ou despreparados. Quando saem de
seus guetos, esses jovens são vistos como ameaça.
A violência institucional
O quadro é complexo mas pode ser compreendido à luz das desigualdades
sociais. Evidentemente, os analistas conservadores hão de considerar que
qualquer referência à perversidade do sistema social é parte do
palavrório esquerdista que tenciona demonizar o capitalismo, mas não se
pode fugir às evidências de que a presença de qualquer grupo com mais de
três jovens da periferia deixa nervosos os seguranças dos centros de
compras ou os policiais que fazem a ronda na Avenida Paulista. Sem
opções de lazer em suas comunidades, esses protagonistas da cena urbana
têm que ir a algum lugar para exercer sua sociabilidade.
O evento específico do “rolezinho” é filho do happening criado por artistas plásticos nos anos 1960. O sistema de convocação pelas redes sociais tem origem nas festas rave
de Londres, prática iniciada nos anos 1990, quando os jovens começaram a
ocupar espaços públicos e privados para encontros musicais quase
clandestinos, depois que esse tipo de evento foi limitado pelas
autoridades inglesas.
Com o advento das redes sociais e a popularização dos telefones
celulares com acesso à internet, a convocação dessas reuniões se torna
mais fácil e imediata.
Qual é a diferença entre marcar um encontro coletivo num shopping e
juntar mil pessoas dispostas a tirar a roupa num parque para aparecer
numa fotografia? O que diferencia essas práticas é a expectativa de que
toda reunião de jovens de baixa renda vai degenerar em saques,
depredação e violência. Num dos casos, a autoridade irá providenciar
segurança para que os participantes não sejam perturbados. No outro, vai
tratar todos como bandidos.
Não se pode esperar que os analistas referendados pela mídia
tradicional, ou pelo menos a maioria deles, conduza o debate para a
questão da violência institucional, que vai da arbitrariedade policial
aos mal dissimulados preconceitos que ainda marcam as relações sociais
no Brasil.
Interessante observar também que os protagonistas dos “rolezinhos” são
parte da nova classe de renda média, cujo poder de consumo sustenta o
andar de cima da sociedade brasileira.
Acontece que são quase todos meio escurinhos..."

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