“Nas eleições de municipais de 2012, quando
a rejeição ao prefeito Gilberto Kassab afetava o desempenho eleitoral de José
Serra, Veja São Paulo, numa capa histórica, perguntou: "Será que estamos
sendo justos com ele?"; agora, depois dos escândalos imobiliários em torno
de Hussain Aref, que tinha mais de 100 apartamentos, e da máfia na arrecadação
municipal, chefiada por Ronilson Bezerra, desviou cerca de R$ 500 milhões, é o
caso de se perguntar: será que ele, que sonha com o Palácio dos Bandeirantes,
ainda tem algum futuro?
Gilberto
Kassab, ex-prefeito da cidade de São Paulo e presidente do PSD, partido criado
por ele para permitir a migração de parlamentares da oposição para a base
aliada, tinha um sonho: governar o estado mais rico do País. Seu nome já está
colocado como candidato oficial do partido ao Palácio dos Bandeirantes – uma
candidatura, por sinal, defendida por vários setores do PT, que o enxergam como
peça-chave para garantir um segundo turno contra Geraldo Alckmin.
A
viabilização de Kassab, no entanto, dependia de uma complexa operação política.
Percebido pela população como um prefeito que se dedicou mais à criação de um
partido do que à administração da cidade, ele tinha, em 2012, uma das piores
avaliações já registradas por administradores da maior cidade do País. Era um
desempenho tão ruim que ajudava a afundar a candidatura de José Serra, em 2012. A tal ponto, que Veja
SP, a Vejinha, saiu em seu socorro, com uma capa histórica. "Será que
estamos sendo justos com ele?", era a pergunta.
Um
dos pontos mais vulneráveis da administração Kassab era o caso Aref, tornado em
maio de 2012, quando se soube que o então diretor da Aprov, setor da prefeitura
responsável por liberar construções, havia acumulado nada menos que 106
imóveis. Será que isso seria possível sem que o prefeito soubesse de nada?
Agora,
surge um escândalo semelhante, com a descoberta de que uma máfia de fiscais,
encastelada na prefeitura de São Paulo, acumulou patrimônio estimado em R$ 80
milhões, desviando impostos municipais e favorecendo grandes construtoras como
a Brookfield e a Trisul.
Os
fiscais presos na investigação sobre o esquema de cobrança de propina de
empresas em troca da redução de impostos torciam pela volta de Gilberto Kassab
nas eleições de 2014 no Estado. Em conversas gravadas nas investigações sobre o
esquema, eles dizem que essa seria “a única chance de continuarem juntos no ano
que vem”. A frase é atribuída a Luis Alexandre Cardoso Magalhães, único dos
fiscais a deixar a prisão após decidir colaborar com as investigações.
Um
deles, Ronilson Bezerra Rodrigues, chefe da máfia, faz afirmações ainda mais
graves contra o ex-prefeito: “Chama o secretário e os prefeito (sic) que eu
trabalhei. Eles tinham ciência de tudo”. Ele disse isso na conversa com Paula
Sayuri Nagamati, a chefe de gabinete da secretaria de Assistência Social que
era amiga do fiscal (leia aqui).
Kassab
rebateu às acusações com uma nota divulgada por sua assessoria. "As
afirmações do servidor público concursado são falsas, como a própria imprensa
já comprovou ser inverídico o conteúdo de gravação anterior na qual o mesmo
funcionário público atribuía ao ex-prefeito a propriedade de um escritório
suspeito de ser usado para a prática de irregularidades", diz.
A
nota diz que ainda que "repudia as tentativas sórdidas de envolver o seu
nome em suspeita de irregularidades" e afirma que há um "objetivo
escuso" que busca "única e exclusivamente atingir a sua imagem e
honra".
Kassab
talvez mereça o benefício da dúvida. Mas se o chefe da quadrilha da Aprov
acumulou 106 imóveis e a máfia dos fiscais desviou tantos recursos, é o caso de
se perguntar: ele não sabia de nada? Estamos
sendo justos com ele?”

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