Rodolpho Motta Lima, Direto da Redação
“A hipocrisia,
como a desonestidade ou a corrupção, não admite gradação. Não há maior ou menor
hipocrisia, assim como inexiste desonestidade mínima ou máxima, corrupção de
grande ou de pequeno porte. A hipocrisia da nossa mídia, por exemplo,
não é maior nem menor do que as que ela denuncia na política. A sua
desonestidade é tão grande quanto qualquer outra quando sonega informações
ou trata com privilégios certos pontos de vista sem a apresentação
equivalente do contraditório. E ela é cúmplice da corrupção quando, em
nome de interesses políticos, elege a dedo um caso e deixa de lado,
acintosamente, todos os demais , que têm como protagonistas os seus aliados.
É por isso, é só por isso,
que defendo a democratização dos meios de informação – sempre lembrando que
alguns deles são concessões públicas - , de modo a impedir que meia dúzia
de famílias brasileiras – afinadas ideologicamente em torno de interesses que
não são os nacionais - detenham o monocórdio poder de distorcer fatos ao
seu bel prazer.
Não vivemos o melhor dos
mundos no Brasil de hoje. Mas ninguém vive o melhor dos mundos na Terra de
hoje. Sem precisar ser um especialista, qualquer bom leitor do planeta pode
perceber os sérios problemas que envolvem, hoje, os caminhos da humanidade. Se
nos voltarmos para a economia, veremos a derrocada de grandes países da
Europa, com seus índices expressivos de desemprego, a estrondosa desaceleração
do império norte-americano, a previsível falência desse sistema integrado de
mercados que vincula os descalabros das grandes corporações bancárias à
infelicidade dos cidadãos do mundo inteiro.
Não vivemos o melhor dos
mundos no Brasil, mas vivemos melhor, no Brasil, que o mundo em geral. Só a desfaçatez
dos manipuladores da informação consegue não enxergar isso. Só essa preocupação
mórbida com as previsões catastróficas e terroristas pautadas pelos patrões
midiáticos faz com que alguns profissionais trabalhem sempre com meias
verdades, repletas de parcialidade. Temos a “imprensa do tomate”, aquela que
preconizou uma inflação galopante a partir de um problema sazonal que envolvia
um único produto da mesa do brasileiro. Temos a imprensa de analistas e
especialistas escolhidos a dedo para repetir os mantras da turma que até hoje
não engoliu três derrotas seguidas afirmadas pelo maior dos ícones da
democracia: o voto.
Afirmei e afirmo minha
independência quanto a partidos políticos, nesse conturbado sistema que obriga
a governabilidade a criar “sacos de gatos” em que os princípios ideológicos
cedem a pragmatismos de ocasião. Afirmo, aqui, inclusive, minha insatisfação em
ver, “aliados” do atual Governo, os atores de sempre – aqueles mesmos que
povoaram gabinetes repressores da ditadura, salões colloridos pouco
respeitáveis ou festas da privataria tucana. Reafirmo aqui meu desconsolo com
agremiações partidárias, cuja integridade é incompatível com o sistema político
vigente.
Nada disso, porém, me impede
de posicionar-me a favor de medidas que se voltem para a diminuição das
desigualdades sociais, para o combate à miséria, para a dignidade do ser
humano, para a afirmação cidadã. Cético em relação a utopias, aplaudo, no
entanto, tudo que se aproxima da justiça social. Nesse sentido é que me coloco
a favor de muitas das medidas tomadas pelos últimos governos, os que sucederam ao
neoliberalismo clássico dos tucanos.
Como ignorar os inéditos e
baixíssimos índices de desemprego entre nós, na contramão do panorama de
grandes potências do planeta? Como não aplaudir as significativas quedas na
mortalidade infantil, o aumento das expectativas de vida, ou os níveis de
redução do trabalho escravo? Como ignorar que esses governos tiraram algumas
dezenas de milhões de pessoas da pobreza, através de programa consagrado no
mundo inteiro? Como não valorizar o acesso de milhões de pessoas a bens e
serviços de que não dispunham, a ponto de constituírem uma “nova classe média”?
Como não nos orgulharmos da ascensão internacional do país, cuja voz hoje é
respeitada e interfere no cenário mundial? Como colocar-se contra um programa
que pretende levar médicos a quem não tem, em nome de corporativismos
perversos?
Críticas sempre haverá. Eu
ainda penso que os bancos brasileiros continuam deitando e rolando com seus
lucros astronômicos , penso que é preciso alavancar, e muito, os índices de
saúde, educação e moradia do povo, penso que agências reguladoras devem
abandonar uma certa cumplicidade perversa com os malfadados planos de saúde e
as oportunistas empresas de telecomunicações (orgulho dos privatistas), penso
que as nossas tarifas de celular não podem ser as mais caras do mundo, penso
que o Governo deveria insistir na criação da Lei dos Meios, penso, enfim, que
há muito por fazer. Mas, se você prestar bem atenção e não quiser aderir
cegamente às manipulações que andam por aí, perceberá que o neoliberalismo não
tem nenhuma resposta a dar para esses problemas e, pelo contrário, só tende a
acentuá-los.
A mais recente falácia dessa
turma – agora acumpliciada com “novos velhos atores” que, convenientemente,
renegaram apoios e convicções antigas - foi a crítica ao modelo de
leilão de Libra, o do pré-sal. Tudo sempre pode ser melhor. É o caminho natural
das coisas. Mas Dilma está certa quanto ao modelo. Não dá para a Petrobras,
sozinha, bancar a monumental exploração desses recursos. É preciso contar com
parcerias sólidas, mas mantendo a ingerência nacional no negócio pactuado. O
entreguismo de sempre preferiria tirar a Petrobras da jogada e, em nome dessa
coisa pérfida chamada mercado, alienar o patrimônio do país à saga do lucro
internacional. O que se está fazendo é bem diferente do processo neoliberal de
privatizações. É preciso ser hipócrita, intelectualmente desonesto, para
não enxergar isso. Ou, então, estar a serviço de outros interesses...
Bom, cada um põe os pingos
nos is do jeito que acha melhor. O meu jeito é esse. Tem gente que põe e tira,
e fica “enredado”, em cima do muro. Tem gente que nunca escreve os is com os
devidos pingos...”

Comentários