Mathew Ingram, Observatório da Imprensa
“Num discurso recente, Katharine Viner,
subeditora do [diário britânico] The Guardian, descreveu como
acredita que as redes sociais e a prática do “jornalismo aberto” alteram fundamentalmente
a relação que os jornalistas têm com sua audiência. Na era digital e social,
uma das coisas difíceis sobre fazer jornalismo, ou qualquer outro tipo de
mídia, é parecer tão simples – em outras palavras, parece muito com o que
costumava ser feito: você escreve coisas e as publica, só que em vez de
imprimi-las, você as posta na internet. E, se você se estiver se sentindo
ambicioso, talvez inclua uns links. Simples, não?
Só que olhar a coisa dessa maneira ignora as formas fundamentais
pelas quais a prática do jornalismo foi completamente alterada pela internet,
como destaca Katharine em seu excelente discurso [em 9/10]. Em sua apresentação, Katharine – que também é
editora-chefe da nova edição australiana do Guardian – falou sobre uma
entrevista que teve com um candidato a emprego. Quando ela perguntou a esse
profissional de jornalismo impresso como ele se adaptaria ao papel digital, ele
disse: “Há anos que eu uso computadores.” Como ela diz, este tipo de resposta
sugere que a internet é apenas uma mudança tecnológica, como um novo tipo de
editor de texto. “Na realidade, o digital representa uma enorme mudança
conceitual, uma mudança sociológica, uma bomba de fragmentação explodindo quem
somos, como é organizado o nosso mundo, como nos vemos, como vivemos. Nós
estamos bem no meio dessa mudança e, às vezes, tão perto que fica difícil
enxergarmos. Mas é muito profundo e vem acontecendo a uma velocidade quase
inacreditável.”
Mudança fundamental
Katharine Viner continua, falando sobre as oportunidades que se
apresentam aos jornalistas quando eles abordam seu ofício de uma maneira mais
aberta e como a resistência de “muitos jornalistas a essa mudança prejudica
seus próprios interesses, assim como os interesses do bom jornalismo”. Caso
você goste de teoria da mídia, ela também fala sobre a crença de algumas
pessoas de que a predominância do jornalismo impresso – e não apenas os meios
de comunicação de massa, como os jornais, mas toda a revolução de Gutenberg –
foi um período temporário e agora voltamos a processar a informação de uma
maneira mais verbal e conectada.
Essa ideia não é muito popular em alguns círculos, mas como alguns
observadores como Tom Standage, do Economist, destacaram, quando você
avalia a maneira pela qual ferramentas sociais, como o Twitter, o Facebook e os
blogs, mudaram o panorama da mídia, parece bastante com o jeito que o mundo costumava
funcionar antes do surgimento dos jornais –
quando os cafés e as redes sociais do mundo real eram a principal maneira pela
qual a informação era transmitida e checada de um lugar para outro. Há pessoas
que alegam que a era dos meios de comunicação de massa foi uma anomalia
histórica.
Mas o fundamental no discurso de Katharine é seu argumento sobre
como tudo isso modifica (ou pelo menos deveria modificar) a natureza da relação
de um jornalista com o que Jay Rosen e Dan Gillmor chamaram de
“as pessoas que antigamente eram conhecidas como audiência”. “O jornalismo
digital não trata de colocar uma matéria na internet. Trata de uma redefinição
fundamental da relação do jornalista com sua audiência, de como pensamos sobre
nossos leitores, da percepção que temos de nosso papel na sociedade, de nosso
status. Deixamos de ser os jornalistas que tudo veem e tudo sabem, produzindo
palavras a serem aceitas passivamente pelos leitores.”
Os benefícios do jornalismo aberto
Os benefícios de ser mais aberto às pessoas que costumavam ser a
audiência, segundo Katharine, vão além das coisas meramente sentimentais, como
estar mais conectado com os leitores ou fazer com que eles retuítem ou
distribuam o seu conteúdo (função que, aparentemente, muitos veículos e
jornalistas julgam ser a da rede social).
Essa abertura pode melhorar o seu jornalismo de várias maneiras:
** Muitas vezes, o leitor sabe mais do que você
A subeditora do Guardian dá como exemplo uma matéria sobre
prospecção em águas profundas e como um Google Doc aberto permitiu que
especialistas de vários campos contribuíssem com seu conhecimento sobre esse
tema, uma abordagem que o jornal britânico faz melhor do que praticamente todo
mundo.
**Com a abertura, vem a responsabilidade
Ao invés de tentar esconder os erros, o que muitos veículos
tradicionais fazem, Katharine fala sobre uma matéria em que o jornal cometeu um
erro e depois, além de corrigi-lo, publicou uma mensagem num blog discutindo-o.
Os leitores disseram que isso realmente aumentou sua confiança no jornal.
**Ser aberto pode produzir furos
Pedir aos leitores que o ajudem torna mais provável que eles tragam
informações que mudam uma matéria de maneira dramática, diz Katharine – como
foi o caso da matéria que o Guardian fez em 2009 sobre a morte de um
vendedor de jornais durante os protestos em Londres por ocasião da reunião do
G20.
**Os paywalls são antiéticos para a rede aberta
Uma coisa que provavelmente não será uma surpresa é a opinião da
subeditora do Guardian sobre paywalls, uma vez que o jornal
britânico é um dos que mais resistem quando se trata de cobrar dos leitores
pelas notícias.
Alguns críticos de mídia destacados, como David Carr, do New
York Times, argumentaram que o jornal deveria desistir e juntar-se à brigada pró-paywall, mas Katharine coloca a
questão dos paywalls no contexto do “jornalismo aberto”, do qual seu
editor-chefe, Alan Rusbridger, fez a pedra angular da abordagem do jornal à
internet: “Um paywall é uma resposta típica da ‘mentalidade de jornal’ –
antes, os leitores pagavam pelo conteúdo; vamos fazê-los pagarem outra vez. Mas,
do ponto de vista jornalístico, os paywalls são completamente antiéticos
em relação à rede aberta. Um website com paywall não passa de um jornal
impresso com outro formato, tornando muito mais difícil a colaboração com as
pessoas que antes eram chamadas de audiência. Você não tem como usufruir dos
benefícios da rede aberta se está escondido.”
Katharine prossegue, falando dos benefícios dos links, mesmo em
relação aos concorrentes – algo que muitos veículos jornalísticos ainda não
dominam –, assim como os desafios de transportar uma observação sobre uma
matéria para a seção de comentários de um jornal, e como são poucos os
jornalistas que o fazem bem. Foi um discurso fantástico e se você se preocupa
com mídia, eu o incentivaria a lê-lo inteiro.
***
Mathew Ingram escreve sobre mídia no site GigaOM
Tradução de Jô Amado, edição de Leticia
Nunes. Informações de Mathew
Ingram [“Going digital isn’t just an upgrade – it’s a complete transformation
in the way journalism is done, GigaOM, 10/10/2013]

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