“Mestre
Antonio Cândido rompe o silêncio de vários anos e dá uma grande entrevista à
revista Brasil de Fato, cujos melhores momentos reeditei”
, Congresso em Foco
De academia, linguagem & clareza: “Acho que a clareza é um respeito pelo leitor. Sempre achei que quando se trata de ciências humanas não deve haver jargão científico. O que tenho a dizer nas humanidades posso dizê-lo com a linguagem comum. Acho que a clareza é necessária para a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.” (isto é, para a mensagem ter valor – grifo meu)
De crítica literária & literatura: “É fundamentaI reconhecer que a obra é autônoma, contudo também foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Meu livro “Literatura e sociedade” analisa isso. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, outras, estudo do vocabulário, a classe social do autor. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam de eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Mas isso me permite tratar de um número muito variado de obras.”
De biscoito fino & croquete: “Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando era um jovem crítico, queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso.
Então, minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete.”
Das traduções: “Quando um livro é traduzido e a crítica diz que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua bom. É a prova de um grande escritor.”
De
leituras, releituras & (des) atualizações:
“Não sei. O Brasil pra mim é um mistério. Tem editora para toda parte, tem
livro para todo lado. Vi uma reportagem que dizia que a cidade de Buenos Aires
tem mais livrarias que em todo o Brasil. Lê-se muito pouco aqui. Mas eu não
tenho computador, nem e-mail. Olha, eu parei no telefone e na máquina de
escrever. Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me
interesso pela literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha
biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. Meus antigos alunos que me visitam e dizem
que a literatura está fraca no Brasil, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos
Estados Unidos… que a literatura está por baixo hoje em dia. Mas, como não me
interesso por novidades, não sei. Aliás, já não leio, eu releio. História,um
pouco de política, alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein,
aquele que os comunistas tinham ódio. Ele dizia que o marxismo tem o defeito de
achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre, partindo da idéia de
Kant “da finalidade sem fim”. O socialismo é uma finalidade sem fim. É
preciso agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas lá não
se chegará nunca. No entanto, se não fizer essa luta, você cai no inferno.”
Entrevista Completa, ::AQUI::

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