OEA abre nova investigação contra o Brasil por não punir crimes da ditadura


Agora, Comissão Interamericana de Direitos Humanos acolhe denúncia por omissão do Estado na apuração da morte do jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, em 1975

Virginia Toledo, Rede Brasil Atual

O Brasil recebeu oficialmente a segunda denúncia da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA), por consequência da ausência de punição de crimes durante o período militar (1964-1985). Na terça-feira (26), a CIDH informou o governo que investigará o não cumprimento do dever de investigar os responsáveis pelo assassinato do jornalista Vladimir Herzog, ocorrido em 1975, na sede do DOI/Codi, aparelho da repressão em São Paulo.

Caso a CIDH considere insuficientes ou ausentes as explicações do Estado brasileiro sobre o caso, é a Corte Interamericana de Direitos Humanos que entrará no processo, como já ocorreu. Em dezembro de 2010, a Corte condenou o Brasil em caso relativo à Guerrilha do Araguaia, por não esclarecer os fatos, não prestar reparação a parentes das vítimas nem punir os responsáveis pela repressão a militantes contrários ao governo militar, nos anos 1970.

"A notificação de hoje é uma clara mensagem da Comissão Interamericana ao Supremo Tribunal Federal (STF) de que novos casos sobre a dívida histórica seguirão sendo analisados pelos órgãos do sistema interamericano na expectativa de que o poder Judiciário se antecipe e cumpra a atribuição que lhe compete, adequando as decisões judiciais internas à Convenção Americana sobre Direitos Humanos, e consequentemente realize a justiça conforme as obrigações internacionais que o Estado brasileiro se comprometeu de boa-fé", diz o comunicado assinado pelos denunciantes, o Centro pela Justiça e o Direito Internacional (Cejil), a Fundação Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos (FIDDH), o Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo e o Centro Santo Dias de Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo.
"A gente sabe que a grande maioria dos países da América Latina tem conseguido resolver sua dívida histórica e julgar as violações de direitos humanos cometidas durante períodos de ditadura militar. O último exemplo foi o Uruguai. E por conta também de uma sentença da Corte Interamericana de um caso que saiu na mesma época da sentença da Guerrilha do Araguaia", relembra o assessor jurídico do Cejil, Luc Athayde.

Nesta quinta-feira (29), o STF julga um recurso feito pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que pede a revisão de pontos referentes à Lei da Anistia. A entidade defende que crimes como sequestro e desaparecimento forçado de pessoas não podem ser alvo de anistia política.  "Estamos passando por um momento crucial para que o Estado brasileiro reconheça a dívida histórica e faça justiça", disse Athayde.”

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