Delfim Netto, CartaCapital
“A crise financeira europeia não terminou,
obviamente, mas nas duas últimas semanas a temperatura baixou e um pouco de
racionalidade passou a frequentar os encontros de aturdidos líderes dos
governos, aparentemente convencidos de que os custos do desmonte da Zona do
Euro (políticos, econômicos e sociais) seriam incomensuravelmente maiores do
que os da manutenção do sistema.
No setor financeiro, a mudança de clima
deu-se a partir da entrada de Mario Draghi no comando do Banco Central Europeu,
fazendo-o assumir seu verdadeiro papel como “emprestador de última instância”,
o que afastou aquela expectativa imediata de uma crise bancária de grandes
proporções na Eurolândia.
Pelo andar da carruagem, o hábil “Super
Mario” usou o timing correto e os recursos adequados para conter a ofensiva do
terror e dar um pouco de tranquilidade aos mercados. Os bancos europeus
sentem-se mais encorajados com a atitude firme de um BCE que exibe mais
musculatura, de forma que a probabilidade de uma crise dramática acontecer
agora e destruir a Zona do Euro diminuiu.
A grande crise (a tragédia dos 27 milhões
de desempregados e a instabilidade política) está longe de terminar, mas a
percepção do custo insuportável parece ter alcançado o cérebro dos europeus. Em
meio ao tumulto financeiro, o abandono do euro seria simplesmente a
desintegração da Europa, um retorno àquele distanciamento entre nações, umas
desconfiando das outras. Imagine o que seria o renascimento da ideia de que os
regimes autoritários são mais eficazes para resolver as crises, o que num prazo
mais longo conduziria ao encontro de uma tragédia muito maior do que a que
muitos países estão sofrendo para salvar a moeda única.
Uma dúvida que desperta a curiosidade (pelo
menos dos economistas) é por que demoraram tanto para reconhecer que o cerne do
problema do euro é uma questão cambial. A solução para a Europa era uma
desvalorização do euro. Só que, hoje, os Estados Unidos também estão fazendo
uma política que desvaloriza o dólar. O nosso ministro da Fazenda, Guido
Mantega, esteve muito à frente de seus colegas das Finanças no G-20, quando os
alertou (com muitos meses de antecedência) para os riscos de uma guerra cambial
que tumultuaria ainda mais o comércio mundial e afetaria as exportações brasileiras.
É a guerra que existe hoje entre o dólar e o euro.”
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