Delfim Netto, CartaCapital
“Ainda há muita divergência (e
desconhecimento) sobre as origens dos problemas que ameaçam a sobrevivência do
sistema do euro. Ele foi uma concepção notável, conduzida por lideranças
convencidas de que só a união política e uma forte integração econômica permitiriam
enterrar “para sempre” a herança dos mil anos de guerras no continente.
Hoje, com a vantagem do “futuro” ter se
tornado “passado”, vê-se com mais clareza que sua construção esteve apoiada
numa integração incompleta e sem regras suficientes, o que lhe deu uma grande
fragilidade econômica. Quando começou a funcionar o euro, pretendia-se
que as taxas de câmbio das moedas europeias estivessem em equilíbrio. Talvez,
mas no passar dos anos houve um crescimento desigual da produtividade e dos
salários dentro de cada país, enquanto as moedas se desvalorizavam (ou
valorizavam) em relação ao euro.
O deutsche mark foi a moeda que mais se
desvalorizou dentro do euro, o que em dez anos deu à Alemanha uma vantagem
extraordinária. Hoje ela tem um superávit em conta corrente de 150 bilhões de
dólares, produzido pelo comércio com os demais países da Eurolândia. Essa conta
só podia ser administrada com os parceiros contraindo dívidas do sistema
financeiro privado, como realmente aconteceu.
A crise iniciada em2008, a recessão
americanaque se seguiu e a fraqueza descoberta no sistema bancário mundial
ajudaram a colocar luz sobre os problemas escondidos na estrutura econômica da
Zona do Euro. Está claro que não foi apenas o descumprimento do regulamento de
Maastrich que produziu o terremoto.
Para entender o que se passou nos últimos
12 anos (de1999 a2010) dentro do euro é preciso verificar o que aconteceu com
as taxas de câmbio “virtuais”. Tomemos, inicialmente, o próprio euro que se
valorizou 12% e, dentro dele, a dracma. Como se sabe, a melhor estimativa para
a taxa de câmbio -real é a relação taxa cambial nominal/custo unitário do
trabalho.
Nos 12 anos o custo do trabalho na Grécia
cresceu 35%. Logo, a taxa cambial “virtual” da dracma foi reduzida de 340,75
para 252,41 (340,75/1,33), para todas as exportações e importações gregas
provenientes da própria Eurolândia, valorizando-se “virtualmente” 26%.”
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