Redação, Carta Maior
“A captura do Estado pelos mercados
reduz a alternância do poder a um simulacro de democracia ao nivelar
partidos e programas aos desígnios da lógica financeira.
O atual deslocamento da disputa política
para as ruas, a impulsionar as maiores mobilizações de massa
registradas no mundo, desde 1968, é uma consequência direta desse rapto.
Ele explica também o paradoxo espanhol. Berço mundial dos indignados, a
sociedade espanhola deu uma esmagadora vitória ao extremismo conservador
nas eleições gerais deste domingo, trazendo de volta ao poder o Partido
Popular, de Aznar, agora porém ainda mais forte, com uma maioria parlamentar
superior a que desfrutou em 2000, obtendo 186 de 350 deputados. A
social-democracia foi triturada perdendo 59 cadeiras, enquanto
pequenos partidos à esquerda cresceram, mas sem ameaçar a
robusta supremacia da direita.
Sugestivamente, porém,
o comparecimento às urnas foi bem inferior ao de 2008, com cerca de
30% de abstenção. O desinteresse, a indecisão e o elevado absenteísmo fazem
deste pleito a síntese de uma Europa esmagada entre a ganância
dos mercados e a rendição socialdemocrata ao neoliberalismo. A esperança
em um novo ciclo de soberania democrática, que reunifique o comando econômico e
político do Estado nas mãos da sociedade, terá que se
materializar a partir das ruas.”
Comentários