Rodolpho Motta Lima, Direto da Redação
“E eis que se deu a esperada prova do
ENEM, versão 2011. Como professor e ator dentro desse processo, não quero
deixar de opinar. Parecia que, desta vez, do ponto de vista administrativo, sua
aplicação tinha tido um número de problemas bem menor do que nas edições
anteriores, mas o episódio do Ceará – de vazamento de questões para alunos de
um determinado colégio - acabou manchando o brilho do certame.
O Ministério de Educação, nesse caso
específico, tem razões para supor que o problema tenha sido gerado por
ato delituoso no âmbito do próprio colégio envolvido – pré-teste copiado e
divulgado indevidamente - e rejeita a tese da elaboração de
uma nova prova nacional, argumentando, analogicamente, com procedimentos do SAT
– teste de seleção americano semelhante ao ENEM – que, quando se defronta com
fatos da espécie, apenas cancela e refaz a prova das pessoas atingidas, já que
o sistema da TRI – Teoria de Resposta ao Item – garantiria o princípio da
isonomia pela formulação de provas com o mesmo nível de abrangência e
dificuldade. De qualquer forma, tem o Ministério que defrontar-se, agora, com
desconfortáveis pedidos de anulação.
Casos como esse, e outros, só robustecem
minha opinião de que o ENEM, sem perder as suas características e mantendo os
seus objetivos, poderia e deveria ser regionalizado. Em um país de
dimensões continentais como o nosso e para um universo que, neste ano,
esteve em torno de cinco milhões de candidatos, será sempre possível que
ocorram situações pontuais em que os prejudicados propugnem pela anulação
integral do concurso. A regionalização constituiria a diversidade, mas mantida
a unidade, porque a TRI, complexo modelo matemático de aplicação eficaz em
muitas partes do mundo, permite a efetiva comparação entre indivíduos da mesma população
que tenham sido submetidos a provas diferentes.
Em ocasião anterior, já tive oportunidade
de externar minha posição favorável ao ENEM, pelo que ele traz de novo para o
cenário da educação. Sou totalmente contrário à volta do vestibular tradicional.
O ENEM traz em si sementes que, prosperando, tendem a alterar o comportamento
das escolas, do ponto de vista metodológico e pedagógico. A partir de matrizes
de competências e habilidades, o ENEM está ditando uma nova forma de
propor questões, calcadas em princípios de contextualização e de
interdisciplinaridade que tentam afastar do que é cobrado a questiúncula
inútil, o problema de algibeira ou as chamadas “pegadinhas”. Ele está
obrigando, assim, a um repensar geral daquilo que se faz em sala de aula, provocando
uma revisão do tradicional enfoque essencialmente “conteudístico” , substituído
por um tratamento muito mais voltado para a formação de um competente “leitor
do mundo” do que para o estímulo aos recursos de memorização, a
“decoreba” que a pedagogia moderna rejeita.
Podemos atestar esse viés mais amplo do
ENEM na sua prova de Linguagens: o que até bem pouco tempo era, na
tradição do vestibular, tão somente uma prova de Língua Portuguesa e Literatura
Brasileira transformou-se, no ENEM, em um conjunto coerente de questões que
incorporam, além de aspectos linguísticos e literários propriamente
ditos, o processo de produção e recepção das Artes em geral, o exame
dos chamados gêneros digitais, seu impacto e função social, e
a linguagem corporal, com suas práticas de integração social e formação da
identidade.”
Artigo Completo, ::Aqui::
Comentários