Matheus Pichonelli, CartaCapital
“O mundo mudou, mas as paredes e
cristaleiras são as mesmas, o fogão e frigideira são das antigas, o despertador
é analógico e os azulejos, do tempo em que coisa velha era chamada démodé. O entulho
que se acumula nos fundos da casa, em Buenos Aires, e o velho Fiat usado como mesa de
apoio para a cerveja levam a pensar que estamos em algum canto do final dos
anos 1970. Só dois detalhes fazem rever a conclusão: uma TV de plasma,
brilhante, na parede da sala, e um chinês desconhecido dentro do quarto.
A alegoria está montada. “Um Conto Chinês”,
filme de Sebastian Borensztein que levou uma multidão aos cinemas na Argentina,
é uma espécie de jogo de espelho em que ninguém sabe exatamente quem é caricatura
de quem. Os estereótipos, que transbordam, são antes parte do jogo de encenação
do que desatenção ao roteiro: o filme não se propõe a entender causas e
consequências do estreitamento da relação entre Oriente e Ocidente, mas sim
brincar com o diálogo truncado e o conjunto de impressões e imagens
(distorcidas, ora preconceituosas) que surgem deste encontro.
Com Roberto, personagem de Ricardo Darín,
Borensztein conseguiu construir o protótipo do espírito sistemático de uma
economia antiga, calcada na abnegação, na acumulação primitiva e na prática
racional capitalista. Max Weber não faria melhor ao descrever um calvinista em
pleno século XXI com sua velha roupa colorida, seu velho modo de fazer cálculo
(à mão, prego com prego) e sua vocação para o trabalho secular.”
Artigo Completo, ::Aqui::

Comentários