"O consenso em torno de certas
ideias de dominância financeira -idéias que estão na origem da atual
crise-- não seria possível sem a sua vocalização pela mídia. Não se trata
de uma teoria conspiratória, estou dizendo que isso se deu através de um
processo social em que as camadas dominantes impõem as idéias dominantes. A
gente nunca pode perder essa dimensão da luta social; como ela se desenvolve e
como maneja os símbolos, os significados, as palavras. Tome o exemplo da
queda da taxa de juros brasileira. Isso produziu em certas pessoas (da mídia)
uma estupefação; em algumas mais estupefação, em outras alguma
indignação. As que ficaram mais estupefactas sempre ouviram o contrário,
que era um perigo, era a ruína . As ideias , como dizia um autor do século
XIX, tem uma força material enorme -- a força
material das idéias dominantes. Norberto Elias, o sociólogo, dizia
que é muito difícil você desconstruir um consenso como este. Daí o papel
crucial da luta social e política. Ou você acha que a crise vai se
resolver mecanicamente, por ela mesma? Não vai. É necessário formular
alternativas. A solução dita ‘normal' é previsível, diz o economista
americano Doug Henwood, que tem uma newsletter de nome muito interessante,
'Left Business Observer'. Henwood foi encarregado de escrever sobre Wall
Street, antes e depois da crise. É muito fácil, asseverou. Antes da crise, Wall
Street era o locus mais poderoso de interesses políticos, econômicos e sociais
dos EUA. Depois da crise, Wall Street continua sendo o locus mais poderoso de
interesses políticos, econômicos e sociais dos EUA. Um repórter que te
entrevista sobre política monetária e ouve algo contrário a esses
interesses, daqui e de lá, hesita em publicar; se publica o faz cheio
de ressalvas. Esse jornalista foi emprenhado pelo ouvido, durante anos, para
perguntar e ouvir sempre a mesma coisa. O problema da mídia no mundo
inteiro é esse monopólio de algumas empresas que veiculam a visão
dominante. Elas são a classe dominante. Nos anos 50 e 60 na Europa, por exemplo,
você tinha uma mídia diversificada que expressava as posições políticas
distintas. As pessoas liam o 'Avanti!', o 'La Unità'... Havia
debate político. Hoje você não tem debate. O que você tem é uma farsa".
Luiz Gonzaga Belluzzo, no debate
‘Neoliberalismo, um colapso inconcluso'
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