Manual de chantagem

Joaquín Roy, IPS / Envolverde

“A crise da Tunísia e do Egito passará para a história como um perfeito manual da chantagem. Alguns atores participaram mais do que outros, mas, com a exceção do povo dos sofridos países árabes, todos se esforçaram para exercer diversas modalidades de extorsão. As variantes incluem as atuações do praticante do assédio sexual, o funcionário que ameaça divulgar a conduta imprópria de um superior, ou a noiva desprezada que ameaça revelar as infidelidades de seu ex. Agora se revela com toda luz a conduta dos protagonistas mais importantes da crise que começou na Tunísia, se estendeu ao Egito e ameaça engolir todo o mundo árabe.

Às portas da entrega do Oscar, o envelope de melhor ator deveria conter os nomes (de momento) de Ben Ali e Hosni Mubarak. Durante décadas conseguiram extrair o silêncio e a cumplicidade de sucessivos presidentes dos Estados Unidos e dos mais poderosos países europeus. Diante da alarmante alternativa de cair em mãos, há anos, do expansionismo soviético, e agora dos radicais fundamentalistas islâmicos, autocratas árabes, de Damasco a Rabat, civis, militares e monarcas medievais, conseguiram amedrontar Washington. Graças à ajuda, venderam a devida “proteção”, ao mesmo tempo em que abriam a torneira da emigração, para se livrar do excesso de população incômoda.

A Europa aceitou a contragosto a chegada dos trabalhadores, que realizavam tarefas rejeitadas pelos nativos. Até que a bolha imobiliária provocou a reação e o convite ao regresso. A juventude tunisiana e os vizinhos que não puderam emigrar exigem agora os empregos que os regimes ditatoriais não podem inventar. Chantageados em sua casa, para se manterem calados, agora ocupam as ruas.”
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