Egito: Falta apoio de países a movimento, diz especialista


Dayanne Sousa, Terra Magazine

“A explosão no Egito de uma verdadeira batalha nas ruas entre manifestantes e a polícia tem potencial para se transformar numa próxima grande revolução histórica, avalia o professor Reginaldo Nasser, especialista em relações internacionais no Oriente Médio pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Para ele, falta apoio internacional para que seja derrubado de uma vez o governo ditatorial de Muhammad Hosni Said Mubarak, há 30 anos no poder.

"Os Estados Unidos têm papel dúbio, para não dizer hipócrita", critica. "O Brasil está igual aos Estados Unidos... Diz que torce para as coisas saírem bem e pronto".

Nesta sexta-feira (28), o Egito viveu o dia mais tenso desde o início dos protestos contra o presidente Mubarak, somando ao menos 5 mortes, 800 feridos e ataques à sede do partido governista. Inspirados pela onda de protestos na Tunísia, os egípcios foram às ruas. Já nas primeiras horas do dia, o governo suspendeu a internet, com o objetivo de prejudicar os manifestantes. Até agora, a rede vinha sendo a principal forma de mobilização.

O professor Nasser avalia que há ainda receios no cenário internacional, uma vez que o Egito é um importante aliado dos Estados Unidos no Oriente Médio. "Os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que são duros nas críticas com o Irã, são condescendentes com as violações de direitos no Egito, e o Egito sempre foi muito pior do que o Irã".

O especialista destaca ainda o papel da internet e, principalmente, a cara nova dos manifestantes. É a primeira vez, diz, que os protestos não têm "as vestes do islamismo". "Está aparecendo um outro ator da história, que não está vinculado a partido, a grupos religiosos", pondera.

Terra Magazine - Podemos considerar uma revolução histórica?
Reginaldo Nasser - Pelo que está se configurando, sim. A gente ainda não tem a dimensão do apoio. No caso da Independência da Argélia e da Revolução do Irã, foi um país inteiro mobilizado. Pelo que a gente tem visto até o momento no Egito, por enquanto são apenas as grandes cidades como Cairo e Suez. Mas pode vir a ganhar uma proporção de uma revolução tal como foi no Irã. E esse é o medo de Estados Unidos e Israel. Se os militares aderirem, o governo não se sustenta, não tem como. Os militares são bem vistos, diferentemente dos policiais.

Existe algo que justificaria o estopim no momento atual?
No curso da história é assim. O que eu acho um diferencial é que no mundo árabe, sempre que aparecia oposição, era sobre as vestes do islamismo. No caso do Egito, o grande opositor do regime era a irmandade muçulmana e que desta vez está participando apenas nos últimos dias. Está aparecendo um outro ator da história, que não está vinculado a partido, a grupos religiosos... São jovens. Acabou vindo à tona num país em que a ditadura existe há muito tempo.

A internet foi essencial para a construção desse movimento, não?
Sem dúvida. Nos eventos no Irã, na fraude eleitoral que houve, já apareciam como um fator importante o celular e a internet. Num regime como esse, a única forma de comunicação é essa. Não há imprensa livre. Se já é importante em regimes democráticos, tanto mais em regimes ditatoriais. Foi bloqueado o Facebook e o Twitter, mas mesmo assim foram para a rua.”
Foto: Reuters
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