Diego Salmen, Terra Magazine“Há 14 anos no poder em São Paulo, o PSDB não dá indícios de que sairá tão facilmente do Palácio dos Bandeirantes. Há pouco mais de um ano das eleições, o ex-governador Geraldo Alckimin lidera as pesquisas com cerca de 40% das intenções de voto. Na tentativa de reverter o domínio tucano no Estado, o PT procura nome viáveis eleitoralmente; ex-ministro da Integração Nacional e duas vezes candidato à presidência da República, Ciro Gomes, hoje deputado federal (PSB-CE), é um dos nomes cotados.
A candidatura passou a ser cogitada devido ao histórico de insucessos petistas no pleito estadual - nunca o PT esteve no poder no Estado. Mais importante: disputando em São Paulo, Ciro fica fora da eleição presidencial. Assim, a provável candidata de Lula à sucessão, a ministra Dilma Rousseff (PT), não terá de disputar votos no Nordeste com um representante da região.
Apesar de ter nascido em Pindamonhagaba (SP), Ciro construiu todo sua vida e trajetória política no Ceará - onde foi deputado estadual e governador. Ainda é, portanto, identificado pelos paulistanos como alguém "de fora", como revelou uma pesquisa recentemente encomendada pelo PT paulista.
Caso se concretize o plano de construir uma candidatura "externa", não será algo inédito na história do partido, pelo contrário: em 1988, a então deputada estadual Luiza Erundina, nascida em Uiarúna, interior da Paraíba, venceu as eleições municipais, tornando-se a primeira prefeita de esquerda da história da cidade de São Paulo.
Em entrevista a Terra Magazine, a ex-prefeita (hoje deputada federal pelo PSB de São Paulo) fala sobre sua experiência política na capital e comenta a provável empreitada de Ciro Gomes em terras paulistas. "Na disputa eleitoral os candidatos que fizeram política a vida toda aqui vão usar disso para desqualificar a candidatura dele, mas não como fruto de preconceito", diz Erundina.
- Eu não vejo como esse aspecto (ser um político nordestino) possa ter qualquer peso em relação a disputa eleitoral do Ciro aqui em São Paulo.
Terra Magazine - A senhora nasceu em Uiraúna...
Luiza Erundina - Em Uiraúna, na Paraíba. E cheguei em São Paulo em 1971; vim por razões políticas, por causa ditadura militar.
Como foi a chegada da senhora aqui?
Eu já tinha estado aqui para estudar, entre 1968 e 1969, fazendo mestrado em ciências sociais. Depois, voltei para lecionar na Universidade Federal da Paraíba. Só que, por restrições políticas e ideológicas, a universidade, por determinação do sistema de segurança da época, não me deixou entrar. Aí eu vim para cá em 21 de janeiro de 1971. Primeiro fui vereadora em 1982, depois eleita deputada estadual em 1986 e exerci os mandato até 1988, quando fui eleita prefeita. Portanto eu já estava em São Paulo há algum tempo.
Como a senhora, nordestina, foi se inserindo aqui em São Paulo?
Como assistente social, eu e outras colegas reativamos uma associação profissional de assistentes sociais que estava desativada havia 7 anos pela ditadura. Nós reativamos essa entidade de classe, e eu passei a militar na área sindical. Foi quando conhecemos o Lula, a luta dos trabalhadores por liberdade sindical.
Houve uma confluência...
Exatamente. Eu vim para militar, mas não era política partidária. Eu tinha uma militância política em razão da minha atividade profissional, fui dirigente sindical e trabalhei como funcionária pública. Eu era assistente social concursada da prefeitura de São Paulo. E foi nessa condição que eu passei a militar como presidente dessa associação profissional. Isso num momento em que a sociedade estava altamente mobilizada na luta de resistência à ditadura, por direito à liberdade de organização, de luta pela democracia.
A senhora sentiu algum tipo de preconceito por ser nordestina nessa época, desde sua chegada?
Logo no comecinho, para eu me inserir no mercado de trabalho, não foi fácil. Não só pelo fato de ser mulher; mais por ser nordestina. Sofri uma certa resistência, mas não foi a ponto de viabilizar minha atividade profissional ou minha participação aqui na cidade. Mas é evidente que eu concentrava em mim, e ainda concentro, vários aspectos que levaram a um processo de preconceito. Não só por eu ser nordestina, mas também por eu ser mulher, de esquerda, socialista, depois por pertencer ao PT... E pelo fato de, num período de restrições políticas, eu estar a frente de certos movimentos, de luta das mulheres por creche, por direito à moradia, saúde. Eu tinha uma militância ligada aos setores populares, de base. E isso tudo atraiu sobre mim muito preconceito. Eu diria que (isso se deveu) mais pela restrição ideológica propriamente dita. E também por ter disputado com os caciques da política paulistana o governo da cidade, isso para eles foi uma afronta.”
José Cruz, ABr
Entrevista Completa, ::Aqui::
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