Ministério da Educação publicou manual de espionagem em 1970

“Para facilitar a repressão a seus adversários, manuais secretos da ditadura militar ensinavam o passo- a- passo para a atuação e infiltração de seus agentes de informação. A preocupação em vigiar e barrar os passos dos opositores do regime era tão intensa que esse tipo de material chegou a ser editado, na década de 70, até mesmo por órgãos que, por suas finalidades, não deveriam cuidar desse tipo de assunto.

Foi o caso do então Ministério da Educação e Cultura (MEC) - hoje desmembrado em duas pastas distintas -, que publicou, em 1970, um Manual de Segurança e Informações. O Estado teve acesso ao documento inédito, com 75 páginas e classificado como reservado, que está guardado no Arquivo Nacional, em Brasília.

O material parece uma cartilha do Serviço Nacional de Informações (SNI), principal órgão de inteligência da ditadura. Oferece instruções absolutamente anormais para uma publicação do Ministério da Educação e acaba servindo como testemunho formal da existência de técnicas violentas de interrogatório.

"Se hoje, nos países democráticos, a psicologia prática, aliada à sagacidade e à experiência dos inquiridores, tem dado ótimos resultados, os métodos violentos e brutais ainda são utilizados por algumas organizações, não obstante a sua total ilegalidade e pequena eficiência", descreve o manual, na sua página 17. Chega a admitir que "por mais democrático que seja o interrogatório, será sempre um ato de coação psicológica, visto o interrogado encontrar-se em situação de inferioridade em relação ao inquiridor".
Marcelo de Moraes, O Estado de São Paulo
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