Coisas da Política - O assalto aos pobres

Mauro Santayana, JB Online

"O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, reclamou do atraso na criação dos mecanismos de controle da atividade bancária no continente. Barroso, que é político conservador, propõe que o Banco Central Europeu e os 27 bancos centrais dos países membros da União imponham padrões éticos ao sistema financeiro para evitar novas crises. A atual, mais do que as anteriores, foi provocada pela falta de regulamentação do sistema financeiro internacional, com o emaranhado de empresas fantasmas, oligopólios e paraísos fiscais. Nessa balbúrdia foi possível o retorno, em nível planetário do velho Esquema Ponzi – corrente na qual os aplicadores antigos são pagos com dinheiro dos novos. Só Bernard Madoff, venerado nos meios financeiros como gênio, causou o "rombo" de 65 bilhões de dólares aos investidores. Não se pode dizer que os perdedores fossem inocentes. Eles também buscavam rendimentos altos, sem examinar a lisura do negócio. Do esquema se beneficiaram grandes bancos internacionais. Só o Santander, a fim de evitar problemas maiores, irá pagar ao liquidante oficial da instituição de Madoff 235 milhões de dólares, o que significa que ganhou bem mais do que isso, ao negociar os títulos podres.

Os bancos não negociam bens tangíveis, e, sim, títulos que os representam, entre eles o papel-moeda. Os bancos vendem e compram papéis. Em suma, assumem compromissos recíprocos. Sendo assim, a ética deveria ser inseparável dos negócios bancários, o que não ocorre. Na insana busca do lucro e do gigantismo das instituições financeiras, tudo é válido. A infração ética se inicia na fixação dos spreads que, direta, ou indiretamente, ultrapassam os limites do bom senso. Os bancos parecem operar sob entendimentos prévios, em que a competição é anulada por vantagens cruzadas. Se um cobra spreads menores, compensa a perda com tarifas mais altas. Além disso, cada um deles se dedica mais a determinado tipo de operações, o que simula concorrência inexistente.

A crise comprovou que os bancos centrais, ao atuar sem o controle do Estado, servem ao interesse dos banqueiros. É com os banqueiros – e não com a sociedade – que "interagem", para lembrar um ex-presidente do nosso Banco Central. Interagem, como interagiram os dirigentes do Banco Central e o banqueiro privado Salvatore Cacciola, com uma operação de salvamento que custou bilhões de reais ao contribuinte brasileiro.”
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