Entre o sertão e a garoa, Tom Zé

“Caetano que me perdoe, mas, na minha opinião, a mais completa tradução de São Paulo não é Rita Lee. Tudo bem que quando ele chegou por lá, ainda sem muito entender da deselegância discreta de suas meninas, deve ter se encantado com aquela franjinha sobre a testa, o corpo mirrado e o fato de ela ser, sob todos os aspectos, completamente desbundada.

Mas, para mim, a pessoa que sintetiza uma boa parte da cidade - já que é impossível decifrá-la inteira -, é a figura de um velho-novo e genial baiano natural de Irará, que traz no seu primeiro nome a grafia do nosso maestro soberano (Tom) e no sobrenome, o som que mais se ouve entre os concretos, andaimes e garagens da louca paulicéia (Zé). Ele, como tantos forasteiros que pra lá arribaram, virou o sinônimo perfeito dessa fascinante e cruel cidade, que morde e assopra com uma espantosa naturalidade.

Sempre que eu posso, vou vê-la. Primeiro, porque ela ainda me provoca. Segundo, pela sensação de estar num lugar onde as coisas acontecem primeiro. E toda vez que a encaro, a indiferença jaz. Ou eu abro a boca (de espanto), ou eu fecho os olhos (de vergonha).”
Janio Ferreira Soares, Terra Magazine
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