“As ruas vazias, o país em recesso, o mundo nas praias, os semáforos foram desligados por total inutilidade. Sim, havia na cidade um estado de felicidadeBarata olhou para o relógio: 8 horas. Levantou-se da cama num pulo e começou a escovar os dentes ao mesmo tempo em que vestia a gravata. Estava amarrando o sapato quando sua mulher falou:
– Aonde você vai, Barata?
– Trabalhar.
– Está maluco?
– Maluco não, atrasado.
– Mas hoje é o seu primeiro dia de férias!
Ponto para ela. Nosso herói voltou para a cama. Mas não conseguiu dormir. Levantou-se de novo, abriu a porta do apartamento e apanhou o jornal deixado pelo porteiro. Ele estava fininho, com mais anúncios do que reportagens, como costumam ficar os jornais nas férias. Então Barata resolveu fazer algo que não fazia há muito tempo: uma caminhada. Calçou os tênis, vestiu trajes esportivos que cheiravam a mofo e saiu.
Logo de cara, teve um choque: pôde atravessar a rua. Num dia comum, mesmo na faixa de segurança ele teria de ziguezaguear feito um centroavante entre zagueiros para escapar de um atropelamento. Chegando à outra calçada, olhou mais uma vez para trás, querendo se certificar de que não estava sonhando. Não estava. Nenhum carro vinha de um lado, nenhum carro vinha do outro.
Algumas coisas chamaram a atenção de Barata no percurso: desde cambacicas de barriga amarela e beija-flores verde-azulados até portas metálicas baixadas e garagens vazias. Nem mesmo os abomináveis cocôs de cachorro obstruíam seu caminho. Foi então que concluiu: a cidade tinha se mudado para o litoral. Aquelas ruas e avenidas eram dele, só dele.”
José Roberto Torero, Revista Brasil
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Comentário deste blogueiro: Feliz Ano Novo!!

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