“Pensador profundo e observador atento da realidade, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman diz que o medo é líquido. Pensando bem, creio ser mais apropriado afirmar que é pastoso, gelatinoso. Vai se esgueirando e colando nas paredes da garganta, fechando-a lentamente e paralisando corpo e coração como um todo. Sólido, líquido ou gasoso, o fato é que o medo reina triunfante e talvez mais poderoso do que nunca neste início de século XXI. Sob seu império, os seres humanos se encolhem e confinam, criando para si esconderijos e muralhas onde possam passar despercebidos ao olhar de seus semelhantes.
Medo da violência urbana. Nas cidades, a violência está de atalaia, esperando a cada um com seu bote mortal. Em cada esquina, em cada momento, em cada suspiro. Mesmo não participando do tiroteio, a bala perdida nos encontra e se aloja em nosso corpo. Mesmo não sendo de briga, estávamos passando no lugar errado no momento errado, na hora da briga. Mesmo não sendo ricos, nosso relógio chama a atenção do menino de rua que nunca teve um. Mesmo com cara limpa o traficante foge da polícia nos derrubando na passagem e nos fazendo vítimas inadvertidas de um fortuito acaso.”
Maria Clara Lucchetti Bingemer, Adital
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