Jornal do dia

“Nemo me confidenciou que, fora certos prazeres íntimos e gastronômicos, nada lhe imprime maior deleite do que, pela manhã, abrir a porta do apartamento e encontrar, sobre o tapete que lhe guarda a soleira, o jornal do dia. É como se a cada manhã, virada uma página de nossa existência, encontrasse ali o novo momento da cidade, do país, do mundo.

Enquanto lhe preparam o café, aboleta-se confortavelmente numa poltrona e percorre os olhos nas manchetes do dia. Lê as chamadas políticas, que lhe soam repetitivas e, por vezes, vergonhosas, como se os nossos representantes no poder público vivessem numa esfera protegida da ética e, sobretudo, da voz dos que os elegeram. Toma ciência dos acidentes de trânsito, das novas descobertas científicas, da oferta de sofisticados equipamentos eletrônicos, das previsões meteorológicas.

Sente-se constrangido ao visitar a página policial com os assassinatos em série, cujas vítimas são, em geral, pobres e negros, num menoscabo completo do valor da vida humana. Alegra-se quando se depara com a boa nova de que a Polícia Federal desmantelou mais uma quadrilha de criminosos de colarinho branco. Detém-se com atenção nas páginas dos esportes, à procura de detalhes sobre seus times preferidos, e lê atento os colunistas que, informados dos bastidores, comentam a crise dos clubes e o mercadejar de jogadores a preços exorbitantes.”
Frei Betto, Adital
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