“Na cerimônia de entrega do Relatório sobre Mortos e Desaparecidos, alguns falaram em reconciliação nacional. Seria melhor que se referissem à conciliação, porque a situação objetiva que nos levou a 1964 não mudou. O problema de fundo, naqueles meses, não era o radicalismo verbal de certas correntes de esquerda, nem a cooptação de eminentes chefes militares pelo anticomunismo visceral da Guerra Fria, mas, sim, a terrível desigualdade social em que vivíamos e, de acordo com o IBGE, continuamos vivendo. Os anos 50 haviam trazido ânimo aos pobres, e o que faz as revoluções é sempre a esperança, mesmo que ela surja, pela rasteira da dialética, do próprio desespero. Como assinala Gilles Deleuze, na análise do pensamento de François Châtelet, quando não há mais nada, sempre resta o desespero. O desespero, ao explodir, pode partejar tempos novos.
É inútil buscar o entendimento no passado. Enquanto houver sobreviventes daquela época plúmbea, haverá, na alma de uns e dos outros, o peso da memória pessoal. Os que se arrependem de seus atos, de um lado e de outro da trincheira, carregam seu constrangimento. Os que mantêm as antigas convicções sentem-se frustrados. Não há encontros no passado, mas, sim, no futuro.”
Mauro Santayana, Jornal do Brasil
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