“O fato de ter aparecido à meia-noite em ponto tem lá o seu mistério, e não sou eu quem vai negligenciar um sinal tão claro de algo ainda obscuro.
Temos aqui um gato preto de butuca no cronista. Vindo da rua (de onde
mais?), ele acaba de trepar e sentar-se no peitoril da janela do meu quarto, olhos fitos em mim, numa impassibilidade de guardião antigolêmico. Não, não tenho coragem de enxotá-lo. O fato de ter aparecido à meia-noite em ponto tem lá o seu mistério, e não sou eu quem vai negligenciar um sinal tão claro de algo ainda obscuro, é verdade, mas sem dúvida alguma instigante. Corro deliberadamente o risco de ser tachado de supersticioso, embora devamos convir que os nossos felinos domésticos não usam relógio (para se conformarem assim, por puro deboche ou auto-recreação, ao folclore em torno deles) e que essa pontualidade mágica exclusiva dos gatos pretos — de alguns gatos pretos, corrige o rabino Loeb, um cabalista e tanto — não pode ser mera coincidência.”
Luiz Guerra / Carta Maior
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