A nata azeda da sociedade

“Separados pela distância entre Rio e Brasília, e pelo intervalo de dez anos, um índio pataxó e uma empregada doméstica foram covardemente atacados por jovens de classe média alta num mesmo lugar e num mesmo horário: um ponto de ônibus às cinco da manhã. Na capital federal, os assassinos de Galdino alegaram terem confundido o índio com um mendigo. Na orla carioca, o "álibi" é parecido: os agressores pensaram que Sirley Dias de Carvalho Pinto, à espera de uma condução para ir ao médico na Baixada Fluminense, fosse uma prostituta. A primeira conclusão destas tristes histórias é que, em ambos os casos, os garotos foram das fraldas à barbárie sem passar pela civilização.

Lembro de ter visto zilhares de vezes a cena dos garotinhos ricos que passam de carro gritando e xingando as prostitutas na praia, de Copacabana ou da Barra. É uma espécie de programação de final de noite. Dentro deste ritual, contou também o delegado responsável pelo caso de Sirley, alguns jovens chegam a atirar lixo e latas de cerveja nas garotas de programa. Na madrugada em que mudaram suas vidas para sempre, os cincos amigos levaram além uma prática que já deveria ser comum para eles.”
Carla Marques / Direto da Redação
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