“Para enfrentar a “bandidagem” precisamos entender que ela não está descolada de nós. Somos ela. Se não com a arma na mão, mas produzindo sua munição, com nossas costas viradas para o que não queremos ver.
Não somos os culpados criminalmente pela morte violenta e brutal do garoto João Hélio, mas, como sociedade, somos responsáveis legítimos por ela ter acontecido. Vivemos juntos e juntos produzimos nossas vítimas e nossos algozes. Nossa interação não se limita ao semáforo de trânsito que sinaliza quando devemos parar para o outro seguir. Vivemos, na maioria, como um núcleo rígido, auto-centrado, impermeável. Acreditamos que ao pagar impostos, ajudar uma instituição de caridade, não jogar papel na rua e respeitar a lei (quando fazemos isso), estamos isentos de culpa de todas as mazelas sociais de nosso país. Dormimos e acordamos no solo de uma das piores distribuições de renda do mundo, onde cerca de 1/3 da população, da nossa população - mais de 50 milhões de pessoas - é pobre, e outros 20 milhões são indigentes. Mas acreditamos que este é um problema do governo, e não temos obrigação ou responsabilidade alguma sobre isso. Diante dessa realidade nos tornamos ilhas, e como tais, não queremos ser incomodados. Até que somos incomodados, quando viramos vítimas dessa violência.”
Luciana Burlamaqui / Carta Maior
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