Flagrantes da Vida Real

“Quanto ao racismo e ao preconceito, não adianta fazer papel de vítima, nem ignorar a realidade. Ela pode ser dura em Portugal, em Angola, ou em qualquer outra parte do mundo, o importante é não relaxar.

Algumas pessoas evitam o tema e há até quem sugira que o racismo não passa de um complexo, uma desculpa para justificar o insucesso, um pretexto usado pelas minorias. Eu própria, para não ser confundida com uma dessas pessoas complexadas e frustradas, para quem, todas as atitudes que as contrariam são sinónimo de racismo, discriminação ou algo parecido, decidi não tomar tão à peito a questão, decidi relaxar.

E relaxei tanto, que há dias entrei numa agência para me informar acerca de um part-time para atender telefones, e ouvi a seguinte resposta, a sair com dificuldade, mas bem clara:

- É que, você tem sotaque. - Sotaque? - Sim, e, não convém. Convém ter um português linear.

De tão relaxada que estava, no empenho de não acreditar que o racismo anda por aí, saí da agência a pensar no que quê que a mulher me estava a querer dizer com aquilo. Sotaque? Português linear?, e queimei o fósforo porque não queria concluir que fui vítima de racismo.”
Portal: Nós Por Cá / Fotos: Sergio Siqueira

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