Villas Boas imitou Bolsonaro


 por Fernando Brito, Tijolaço -

O então tenente Jair Bolsonaro, nos anos 80, irritado contra o que achava ser uma afronta aos militares, conspirou com outros oficiais para fazer uma ameaça que lhe permitisse alcançar seus objetivos – um aumento de soldo – planejando explodir bombas em quartéis e na Adutora do Guandu. A quem seriam atribuídas as explosões não se sabe, mas é provável que fosse aos “vermelhos” que, na visão delirante de uma camada militar, são a grande ameaça ao país.

Os relatos do livro Conversa com o General, onde se narram os bastidores do famoso tweet com o que o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas emparedou o STF para que negasse o habeas corpus do ex-presidente Lula para recorrer da condenação em liberdade, em 2018, fala de atitude em tudo semelhante ao que fez, naqueles anos 80, o então tenente Bolsonaro: conspirar com seus camaradas de armas para, num ato de transgressão à legalidade e à disciplina militar, pressionar para obter o resultado político que lhe convinha.

O tweet rascunhado por oficiais generais é, afinal, semelhante ao croquis feito – e renegado depois, ao menos – por Jair Bolsonaro para a colocação das bombas. Aliás, é mais grave, porque a ameaça dos traques que o então tenente pretendia soltar talvez partissem tubulões, enquanto o tweet dos generais destinava-se a quebrar a independência e harmonia dos poderes da República.

Suas alegações de que havia “muita demanda” por uma intervenção militar e que “era muito mais prudente preveni-la do que, depois, sermos empregados para contê-la” é de um cinismo atroz: jamais ninguém cogitou e muito menos sugeriu que se usariam as Forças Armadas contra as manifestações da direita , bem como é terrível a sua fala de que “a porosidade” da tropa a fazia compartilhar “ansiedade semelhante”.

O general quer dizer que a tropa iria se sublevar contra uma orientação legalista de seu comando. Não, isso não aconteceria e, noutro ponto, o próprio general admite que abriu os quartéis para a pregação pró-ditadura de Jair Bolsonaro, que não faltava a formaturas até de recrutas. Portanto, a “ansiedade semelhante” era, senão semeada, ao menos regada pelas ordem da alta cúpula militar.

A irritação da cúpula militar com a Comissão da Verdade, várias vezes colocada no livro como fonte do descontentamento militar com o governo Dilma nada tem a ver com a honra e a lealdade a que se devem obrigar os militares, sobretudo porque lealdade, quando não há honra no que se faz – a menos que se considere tortura honrosa – não há lealdade possível, trata-se apenas de cumplicidade.

 

Mas, ao contrário, há deslealdade naqueles militares que conspiraram tanto no golpe quanto na eleição de Bolsonaro – o general não conta o que é o “segredo” mencionado pelo próprio presidente, em público, ao dizer “o que já conversamos morrerá entre nós”ara completar com um escancarado “o senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”.

O seu croquis, ao contrário do tenente Bolsonaro, funcionou, mas não por isso deixa de ser menos criminoso e menos merecedor do conceito com que Ernesto Geisel brindou o tenente “bombinha” : um mau militar.

Comentários