O “padrão Fifa”, o “padrão Moro” e a falta de política

Fernando Brito, Tijolaço 

Menos de três anos atrás, as ruas brasileiras estavam cheias de manifestantes de classe média, negadores da política, orgulhosos do “apartidarismo” e a vasta fauna de “donos da verdade” que, depois, virariam os “revoltados” e os “kataguiris” de hoje.

A esquerda confusa, que não percebia a natureza daquilo – também houve na direita quem tenha se confundido, mas o Jabor foi rápido na correção, apenas 24 horas – olhava perplexa os cartazes pedindo “padrão Fifa” nas escolas, nos hospitais, em tudo e tendia a achar que era – oh! – a endeusada classe média a pretender o ótimo, como se requeresse um passo mais à frente, agora que o país havia, finalmente, andado.

Padrão Fifa era, afinal, sinônimo de qualidade, excelência, modernidade, de respeito ao contribuinte e à população.

Em nome disso, era até bonito e conveniente que o “sacerdote” da Fifa, o sr. Jerôme Valcke, recomendasse um “pontapé na bunda” do Brasil. Afinal, todos aqui eram incapazes, desonestos, ineficientes e, enquanto eles queriam bons estádios e bons serviços os governantes tupiniquins só queriam mesmo é roubar.

Dispensa-se dizer o que se revelou ser, afinal, o “padrão Fifa” e seu clero.
Há pouco mais de um ano, finda a Copa onde o nosso quase único problema foi dentro de campo, trocou-se o “padrão Fifa” pelo “padrão Moro”.

Novamente o país se viu vergado em adoração a  um homem sem passado, à frente de uma instituição “dona” do honestíssimo sucesso de todas as Copas (embora todos, no fundo, soubessem que a Fifa já não era, há muito, “os velhinhos do board” dos quais falava o João Saldanha.

Como Moro, o Brasil de novo se reduziu à praga dos incapazes, dos ladrões, dos ineficientes e todas as obras e investimentos, afinal, são apenas um pretexto para roubar.

Todos são corruptos, desde que todos sejam governistas este todos, porque o Brasil foi construído por meio milênio de homens honradíssimos e, afinal, a política é um altar de santos em outras igrejas que não o “lulopetismo” (vejam que até uma expressão nova criaram para modernizar o desgastado “populismo”, que era a versão que a mídia e a academia usavam em outras nem tão longínquas eras).

Óbvio que não se acusa o Dr. Moro das falcatruas que se revelaram sobre Valcke. Comparam-se apenas  o autoritarismo, as “razões absolutas”, as verdades irretorquíveis de tudo o que diz. E o poder de, afinal, decidir se “vai ter Copa”  ou “não vai ter Copa”, aquele “impeachment futebolístico”  que arrastou tantos imbecis às ruas.

Mais importante é a reação da esquerda e do governo brasileiro, tão semelhante num e noutro caso.

Primeiro, a perplexidade. Depois, a capitulação ao discurso do inimigo.
A estratégia é ocultar-se, pretendendo que o tempo passe e, depois, quase prometendo, diariamente, “comportar-se bem”, à espera da hora final.
Luta política, polêmica, nem pensar.

O governo e as camadas dirigentes do PT parecem ter vergonha de si mesmos.

E seus intelectuais, sempre com os punhos de renda de quem parece mais bem situado  no clube amável das ideias do  que na poeira e nas simplificações  necessárias à política real, aquela que dá comida, escola, emprego, salário e progresso.

O governo parece conformado com a derrota e firmemente  disposto a seguir a máxima do lendário Neném Prancha: “recurar os alfes para evitar a catástrofe”.

Não é outra impressão que passa o governo Dilma desde a sua posse, com raríssimos espasmos – não continuados – de reação.

Poupo-me de seguir nas comparações com o futebol da Copa para não piorar a segunda-feira."

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