Miriam, esqueça a inflação

André Araújo, GGN


No seu comentário de hoje na CBN, a jornalista Miriam Leitão assinala, com razão, a ambivalência da política econômica entre notícias de abertura de crédito pelos bancos públicos exatamente quando o BC dá sinais que vai aumentar os juros, e coroa seu pensamento com a afirmação "neste momento tem que combater a inflação", seguindo o mantra antigo dos economistas da Casa das Garças, todos eles ligados ao mundo rentista, para quem a inflação é pecado mortal porque corroe seus ganhos sem trabalhar e espalham que a inflação é mortal para todos.
É um pensamento econômico ortodoxo e convencional, do passado. O pensamento econômico mudou consideravelmente depois da crise de 2008. Novas fontes de discussão como o Institute for New Economic Thinking, o INET, reunindo 790 economistas de grande peso no mundo vem propondo uma REVISÃO dos conceitos que prevaleceram no "mainstream" ortodoxo a quem atribuem por suas falhas a grande crise de 2008.  O INET conta com Prêmios Nobel (Sehn e Stiglitz), economistas de ponta de Harvard (Rogoff), MIT (Simon Johnson), London School of Economics (Helene Rey, Charles Goodhart), New School (Foley), UC Berkerley (Eichengren), Oxford (Beinhocker, Hendry) Bank of England (Aldane), Fundo Monetário (Zhu Min, Vice Diretor), U. of Chicago (Heckman),  todos esses nomes preparam papers fundamentais de rediscussão das premissas congeladas do pensamento monetarista clássico. Até a própria Universidade de Chicago está revisando esses cânones, um dos quais é o combate à inflação via taxa de juros e a austeridade contra a recessão.
Política econômica é fazer opções e estabelecer prioridades. Não se pode fazer todos os bons fundamentos de uma vez, às vezes uns são opostos a outros, como bem apontou Miriam Leitão, então é preciso ESCOLHER o mais urgente.
Miriam usou exemplos médicos na sua fala de hoje, vou aproveitar esse gancho da própria jornalista com meu exemplo médico. Quando um paciente entra no hospital com pneumonia e é diabético, o protocolo é o medico tratar da doença aguda, a pneumonia, que pode matá-lo em dias ou horas e deixar de lado a doença crônica, a diabetes, que pode matar, mas só a longo prazo. Todos os esforços então se concentram no mal mais perigoso, sem desconhecer que existe outra doença que, depois, deve ser também tratada quando passar o perigo da doença aguda.
Não teria sentido o médico tratar do diabetes e deixar a pnumonia solta. A inflação é o diabetes e a pneumonia é a recessão e seus corolários de paralisia de setores, quebra de empresas, miséria e desemprego.
Para tratar da recessão é preciso esquecer da inflação por enquanto, todas as forças e ações tem que ser no sentido de tratar da crise e por consequência do emprego, é a questão fatal, a inflação incomoda mas não mata.
A razão do BC subir juros é combater a inflação mas para quê? Em primeiro lugar não vai conseguir aumentando 0,5 %, nem se puxar a SELIC para 50% vai fazer abaixar o preço do tomate, da cebola e da batata. Derrubar a produção acaba com os empregos, mas não baixa os preços porque estes agora são determinados pelos custos. O industrial prefere não fabricar se for para vender abaixo do custo portanto os preços não vão baixar por mais alto que subam os juros.
Essa é a crença errada de Miriam e de muitos outros que se guiam por conceitos cristalizados sem perceber enormes mudanças no ambiente social, político, demográfico, energético, geopoíitico internacional.
O tomateiro prefere não plantar do que vender abaixo do mínimo. Portanto a alta da SELIC vai apenas engordar o rendimento dos rentistas e estourar mais o orçamento da União, não vai baixar a inflação depois de promover estragos.
O Prêmio Nobel Joseph Stiglitz, em recente entrevista, disse algo importante: Os economistas dos países emergentes e os professores de economia que lecionam nas Universidades desses países estudaram nos Estados Unidos ou Inglaterra ANTES da crise de 2008, absorveram as lições que hoje são superadas, a visão da economia e de seus conceitos e modelos está mudando em todo o mundo, temo que os economistas do Brasil estão usando cadernos antigos e superados.
Amanhã vou postar artigo com base em paper da economista Lynn Parramode do INET sobre a falácia do conceito de AUSTERIDADE, que ela desmonta do começo ao fim, mostra o caráter mitológico e falso do AJUSTE FISCAL e critica a lógica desses conceitos como ferramentas de política econômica atual."

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