O 1º ato da guerra da PM de Alckmin contra as escolas ocupadas de SP

A polícia em ação na escola Maria José, no centro de SP
Mauro Donato, DCM

Incentivados pela declaração de guerra feita pelo chefe de gabinete de Herman Voorwald e sentindo-se ‘amparados’ pelo decreto da reorganização escolar publicado hoje no Diário Oficial, polícia, pais e diretores de escolas contrários às ocupações feitas pelos estudantes partiram para o ataque.

Comecemos pelo decreto pois sobre ele há pouco o que se dizer. É uma peça tacanha, ridícula em sua rusticidade. Pouco mais de 150 palavras anunciando a entrada em vigor na data de hoje. Assim, pronto, está feito. Sem relacionar quais escolas serão fechadas, quais serão ‘reorganizadas’ em ciclo único, quais serão obrigadas a receber alunos de outras unidades. Servia apenas como sinal verde para a guerra.

Já no que diz respeito às ações, o buraco é um pouco mais embaixo.
Ainda durante a madrugada, ao menos duas escolas foram invadidas. A E.E. República do Suriname no Itaim Paulista e a E.E. Coronel Sampaio em Osasco.

Na primeira, o marido da diretora da escola junto com um grupo de pessoas encapuzadas invadiu a ocupação e tomou a escola. Em Osasco a invasão foi comandada por grande número de policiais e na manhã de hoje a escola foi aberta para a imprensa completamente destruída. Até fogo foi ateado e a culpa, obviamente, atribuída aos alunos.

Na manhã de hoje, a EE Honório Monteiro na Vila Calu e a escola Maria José (região central) também foram invadidas de forma violenta. Eu estava lá.
Desde que o áudio do gabinete da Secretaria de Educação vazou, diretores de escolas iniciaram uma campanha aliciando grupos de alunos e pais contrários às ocupações. A ação que culminou no ataque à E.E. Maria José foi planejada numa reunião realizada no dia anterior dentro da igreja da Achiropita, na mesma rua da escola.

Tudo começou muito cedo com uma visita do chefe de gabinete da Secretaria de Educação, Fernando Padula. Ficou no portão, jogou seus argumentos sobre o prejuízo que a ocupação estava causando aos que eram contra e foi-se embora. Pouco tempo depois alguns pais estouraram os cadeados do portão dos fundos da escola com martelos, marretas e barras de ferro. A Polícia Militar e o diretor da escola estavam com a entrada livre.

Lilith Cristina tem 13 anos e é uma das porta-vozes da escola. Enquanto ela tentava chamar a atenção dos demais ocupantes sobre o que acontecia utilizando um microfone ligado a uma caixa de som, tomou um tapa na cara – segundo ela dado pelo diretor –  e teve o equipamento tomado.

Outros alunos foram agredidos pela PM. Alan levou uma gravata e quase desmaiou. Ao cair no chão levou chutes e foi pisado no peito pelo policial que alegava ter sido empurrado pelo estudante. “Eu tomei spray de pimenta na cara, não estava enxergando nada e esbarrei em alguém. Daí ele me agarrou e comecei a apanhar”, falou o adolescente que apresentava forte vergão no pescoço e andava mancando.

Depois de muita confusão, pais de alunos e advogados começaram a chegar. Aos invasores e policiais não restou alternativa a não ser deixar a escola. E o diretor da E.E. Maria José, caso confirmada a agressão, está sujeito a penalidades duras. Agrediu uma menor e mulher. Estatuto da Criança e do Adolescente e lei Maria da Penha estão aí para isso.

É preciso estar atento aos detalhes dos últimos acontecimentos: uma reunião como essas marcada dentro de uma igreja católica; a visita surpresa de Fernando Padula atraindo toda a atenção para o portão da frente enquanto invasores arrombavam as portas dos fundos; e tudo, absolutamente tudo, sem nenhuma autorização judicial. Não é coincidência também que nas escolas de periferia o estrago tenha sido maior. Ali a PM vai agir com seu habitual modus operandi: entra na marra, sem autorização, quebra tudo e diz que foram os alunos. Nas escolas mais centrais e com imprensa por perto isso será mais difícil.

Em todas as ocupações visitadas pelo DCM, nenhuma escola tinha sinais de vandalismo. Muito pelo contrário, estavam limpas, organizadas e com várias melhorias. Chuveiro e água quente nunca existiram nessas escolas e papel higiênico sempre foi ítem mais raro que ornitorrinco albino. Agora não.

Eloá Cristina está concluindo o último ano do ensino médio. Estuda na E.E. Maria José desde a 3ª série. Fez metade do Fundamental I, todo o Fundamental II e o ensino Médio inteiro ali. Ela não tem nada a ganhar, individualmente, com a não implantação da reorganização no entanto apóia a iniciativa. Trabalha durante o dia e ocupa durante a noite (o terceiro ano médio é noturno). “Eu não penso só no meu umbigo. Não entendo esses pais já que estamos fazendo isso pelo bem dos filhos deles, por uma melhor educação”, disse.
Na guerra não existe bom senso, Eloá. E ela está só começando.



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