Fontana: Terceiro turno que nunca termina tem alto custo para o Brasil

Marco Weissheimer, Sul 21 

2015 poderá ficar conhecido na história do Brasil como o ano que prolongou, ao longo de doze meses, um terceiro turno das eleições presidenciais de 2014, vencidas por Dilma Rousseff . Inconformados com os resultados das urnas, que reelegeram a candidata do PT, partidários de Aécio Neves começaram a questionar a legitimidade da presidenta eleita ainda no final de 2014. Animados por protestos de rua no primeiro semestre, os líderes da oposição encontraram no presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB) um aliado para dar início a um processo de impeachment contra Dilma Rousseff. O ano chega ao fim com um clima de grave acirramento político. Esse terceiro turno sem fim, porém, está causando sérios danos à economia do país e à vida democrática brasileira como um todo, adverte o deputado federal Henrique Fontana (PT-RS), em entrevista ao Sul21.

Um dos principais líderes do PT na Câmara dos Deputados, Fontana chama a atenção para o alto custo social, político e econômico da tentativa patrocinada por setores da oposição liderados pelo PSDB de derrubar Dilma Rousseff. “É uma espécie de vale tudo para interromper o mandato eleito democraticamente da presidenta Dilma Rousseff. Esses mecanismos deixam sequelas extremamente negativas para o tecido democrático, para a economia do país, para a governabilidade e para a vida das pessoas de modo geral”.

Sul21: A última quinta-feira pode ter marcado uma espécie de encerramento do ano político, com o julgamento do rito do impeachment no Supremo Tribunal Federal. Como avalia o resultado desse julgamento que zerou o processo de impeachment na Câmara, considerando o clima de acirramento político no país, que só aumentou no decorrer do ano?
Henrique Fontana: Seguramente, o maior problema que o Brasil está vivendo é a crise política que ele enfrenta. Essa crise política tem, obviamente, múltiplas causas, mas ela tem uma causa central e estrutural, que é a decisão da oposição de não aceitar o resultado da eleição. Isso gerou um conjunto de capítulos ao longo do ano, o chamado terceiro turno de uma eleição que nunca termina e que tem um custo social, político e econômico muito grande para o país. Obviamente que a crise econômica tem outras causas também, mas não há dúvida que esse ambiente de intolerância, de ódio, de conflitividade política fora dos padrões desejados para um ambiente democrático vem sendo fortemente alimentado por uma parte da oposição que, infelizmente, hegemoniza essa oposição e mantém um terceiro turno que nunca termina.

É uma espécie de vale tudo para interromper o mandato eleito democraticamente da presidenta Dilma Rousseff. Esses mecanismos deixam sequelas extremamente negativas para o tecido democrático, para a economia do país, para a governabilidade e para a vida das pessoas de modo geral. Esse nível de conflitividade beirando a intolerância no convívio entre oposição e governo está gerando prejuízos muito grandes.

Este cenário, ao longo do ano, encontrou um ator privilegiado: Eduardo Cunha, um dos políticos mais corruptos de que se tem notícia na história do país. É um político que se constituiu naquilo que é o melhor exemplo de um político de negócios, fenômeno que ocorre dentro da nossa sociedade. Ele se criou à sombra, foi crescendo desta forma e, neste ambiente, ele encontrou seu melhor momento. A eleição dele para a presidência da Câmara já teve muito a ver com essa ideia do vale tudo para derrotar o governo Dilma. Tivemos votos movidos por isso, que se somaram a um conjunto de votos de defensores de uma pauta ultraconservadora e aos políticos de negócios dentro de um ambiente de financiamento eleitoral como nós temos, alimentando um clima de crise política permanente.

De algumas semanas para cá, especialmente, vivemos um clímax desta tentativa de golpe institucional. Na antevéspera da assinatura de um dos tantos pedidos de impeachment que foram feitos, o PT tomou a mais importante decisão do ano, resolvendo uma tensão que perdurou muito tempo dentro do partido, desde a pré-candidatura de Arlindo Chinaglia para a presidência da Câmara, que eu apoiei com toda a convicção, por entender que nós deveríamos dar combate a essa política inaceitável de intolerância, que protege um conjunto de mecanismos de corrupção, representada pela candidatura de Eduardo Cunha.

Sul21: Olhando hoje, retrospectivamente, para esse momento no início do ano, você segue achando que a candidatura de Chinaglia foi um acerto?
Henrique Fontana: Sim. Eu digo isso não porque já tinha essa opinião, mas a partir de uma leitura histórica dos fatos. Eu tinha convicção de que a candidatura Chinaglia era indispensável para o campo progressista já naquele período. Naquela época alguns diziam que, como Eduardo Cunha estava muito fortalecido, por diversos motivos que já citei aqui, o melhor seria adotar uma postura pragmática e fazer um acordo na lógica do menos ruim. Imagine o desastre que seria para a esquerda e para o campo progressista se o PT tivesse marchado numa candidatura junto com ele. O tempo mostrou que tudo o que ele vinha para fazer, como presidente da Câmara, era organizar a oposição ao nosso governo e patrocinar um conjunto de pautas conservadoras e de retrocessos para a sociedade (leia mais)."

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