Diretor do FMI critica "flá-flu" do Congresso e omissão da mídia em avanços econômicos

Jornal GGN

O representante do Brasil e de outros dez países no FMI, Otaviano Canuto, afirmou que a mídia não prestou atenção no "legado importante" de Joaquim Levy para a economia neste ano, e disse que um dos principais motivos para isso foi "flá-flu político" no Congresso. As declarações foram concedidas em entrevista à Folha de S. Paulo.
 
Canuto elencou como avanços "o maior corte discricionário de gastos desde a promulgação da Lei de Responsabilidade Fiscal" e contrariou o temor "completamente infundado" de uma possível volta à matriz econômica do primeiro mandato de Dilma, caso Nelson Barbosa assuma o posto de Levy. Sobre a justificativa da equipe econômica de que o cenário de crise está atrelada a fatores externos, o ex-secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda afirmou que "para entender as dificuldades brasileiras, há sim um componente externo inegável".
 
Para o ex-vice-presidente do Banco Mundial, caso o Congresso aprove medidas, como a CPMF, "que servirão como uma ponte na arrecadação", "as coisas tendem a melhorar na segunda metade de 2016". E apesar de considerar que as disputas políticas no Legislativo dificultem, Canuto mostrou pragmatismo em suas convicções: "Não creio na tese do quanto pior, melhor".
 
 
Folha -­ O mercado reagiu mal à nomeação de Nelson Barbosa. Como é possível recuperar a confiança?
 
Otaviano Canuto -­ Vai depender de passos concretos. É natural que haja desconfiança por conta da mudança. Quanto mais rapidamente o governo vier com propostas, mais forte será a percepção de que a política é a de colocar as contas em ordem. O Joaquim [Levy] deixa um legado importante graças às medidas que tomou.
 
Houve progresso em várias áreas, mas por causa do flá­flu político e também pela profundidade do choque que a economia está atravessando, as pessoas e a mídia não estão prestando atenção. Por exemplo, neste ano houve o maior corte discricionário de gastos desde a promulgação da Lei de Responsabilidade Fiscal.
 
Não foi o suficiente porque houve uma queda brutal da produção e na arrecadação. O retorno da CPMF, que espera­se, será aprovado no início do ano, dará resultado no segundo semestre. O Nelson é um cara extremamente preparado. Eu vejo muito mais continuidade.
 
Há risco de uma volta à "nova matriz econômica" do primeiro mandato de Dilma?
 
O temor é completamente infundado. O contexto em que a nova matriz foi implementada, anos atrás, era diferente do atual. Havia espaço fiscal, a hipótese de um atalho para um novo padrão de crescimento nunca tinha sido testada. Agora, a experiência mostra que o atalho não deu certo e as condições fiscais são opostas.
 
Na medida em que o governo demonstrar compromisso com o que propõe, a confiança retornará. A magnitude do choque tem sido brutal. O declínio abrupto do PIB não pode ser compreendido somente à luz das variáveis macroeconômicas.
 
Tem­se aí um processo de contaminação da política sobre a economia, na confiança do setor privado, e um desarranjo nas estruturas de mercado em todos os setores em que há relação com o setor público. O efeito imediato foi a paralisia dos investimentos diretamente ligados e um compasso de espera pelos candidatos a entrar nesse mercado. Mas tem um lado econômico positivo, que é a prevalência da lei. É um fator importante para o investimento privado.
 
É razoável concluir que os benefícios só serão sentidos no próximo governo?
 
As coisas tendem a melhorar na segunda metade de 2016. Tem uma transmissão estatística que vai fazer com que as cifras no ano que vem sejam muito ruins. Mas quero crer que a confiança voltará, na medida em que o Congresso aprove medidas, como a CPMF, que servirão como uma ponte na arrecadação. O flá­flu político dificulta.
 
Sou um profundo crente do pragmatismo brasileiro, inclusive do Congresso. Os congressistas sabem que, independentemente do resultado do processo político, o país também é deles. Não creio na tese do quanto pior, melhor. Há risco de um desequilíbrio fiscal a ponto de forçar o Brasil a recorrer ao FMI?
 
Não creio. Existem dificuldades com horizonte de largo prazo, em decorrência da dívida, mas nenhuma parada súbita e movimento abrupto de saída de capital. Os ajustes de fluxo de capitais para o Brasil têm sido na margem, é um fenômeno que ocorre com todos os emergentes. Não há porque buscar o FMI.
 
Até há algum tempo o governo atribuía a crise a fatores externos. Essa narrativa está ultrapassada?
 
Não é coincidência que o mundo emergente esteja em desaceleração desde 2010. Há vários fatores externos em comum. A transição da China a um padrão de crescimento mais estável e menos exuberante é um deles. Isso afeta principalmente os exportadores de commodities.
 
As políticas de afrouxamento quantitativo não poderiam continuar para sempre. As economias emergentes puderam se defender por um tempo mediante instrumentos anticíclicos. Mas eles são "one shot"; servem para responder a um choque, mas não dão conta quando a desaceleração é muito mais estrutural e prolongada.
 
Para entender as dificuldades brasileiras, há sim um componente externo inegável. O que não dá, e isso também faz parte do flá­flu político, é atribuir só a um ou a outro. O resultado final é a combinação do quadro externo com uma certa demora no quadro doméstico a reagir à nova realidade. A presidente Dilma reconheceu que o manejo contracíclico no caso brasileiro se prolongou por um tempo além de sua eficácia.
 
O Brasil tem uma das economias mais fechadas do mundo. Qual o peso disso e o que pode ser feito para mudar?
 
Se engajar mais ativamente nas negociações para ajudar a economia brasileira a se abrir mais. É preciso ter uma postura mais ativa, uma diplomacia comercial mais propensa a dar para poder receber. Ficamos muito restritos com a indisposição de parceiros do Mercosul, mas as coisas estão mudando.
 
A mudança na Argentina é importante. A própria presidente tem mencionado que é preciso avançar na negociação Mercosul­ UE. E devemos resistir à tentação do uso de medidas de proteção, que acabam servindo apenas para aumentar as rendas dos beneficiários, mas com custos para todos os outros. A economia brasileira ainda é muito protecionista.
 
Com atraso de cinco anos, o Congresso dos EUA destravou a reforma do FMI, que aumenta o voto dos emergentes. Qual o significado prático?
 
Aumenta a legitimidade do FMI, porque a governança passa a refletir melhor o mundo como é hoje. Um Fundo maior significa uma rede de segurança financeira global. Sem um FMI da magnitude necessária, os países passam a ter reservas muito maiores por precaução, o que significa imobilização de recursos. Assuntos importantes para países emergentes ganharão mais atenção. Um exemplo: as economias emergentes estão mais sujeitas que as avançadas à volatilidade de entrada e saída de capitais. Isso era meio tabu e já está ganhando mais atenção. Os emergentes passam a ter maior poder para definir o foco.

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