PSDB tem de provar que não finge romper com Cunha

Tereza Cruvinel, Blog: Tereza Cruvinel

O PSDB perdeu duas vezes ao aliar-se a Eduardo Cunha para alcançar o impeachment da presidente Dilma: o derretimento moral de Cunha inviabilizou o impeachment e a aliança desgastou os tucanos junto à sua base social e política. Hoje o partido anunciou o desembarque e foi chamado de desleal pelo presidente da Câmara. Mas para redimir-se e remover as desconfianças, terá de provar que o desembarque é para valer.

O fingimento tucano em outras manifestações pedindo a saída de Cunha, seguido de encontros semi-clandestinos com o presidente da Câmara para tramar o impeachment, autorizam a desconfiança geral de que o PSDB pode estar novamente só jogando para a plateia e pressionando Cunha a acolher logo o pedido de abertura de processo contra Dilma subscrito por Helio Bicudo e Reale Júnior. Cunha colocou a decisão em fogo brando e prolongado. Enquanto isso, foi conseguindo a equidistância acovardada do PT e o apoio cada vez mais velado da oposição ao governo.  Ademais, se o fizesse, nas condições atuais, a peça cairia no descrédito, reduzida a mero gesto de vingança.

Mas agora, com sua situação agravada pela abertura de processo no Conselho de Ética e a fragilidade das explicações para o dinheiro na Suíça o PSDB já não pode fingir. Em breve vai ter que provar que não está blefando. E isso acontecerá lá pelo dia 24, quando deve ser votado o parecer do relator Fausto Pinato no Conselho de Ética. Embora seja do PRB, partido que dá sustentação ao presidente da Câmara, com quem tem relações amistosas, Pinato deve propor a aceitação da denúncia pelo Conselho de Ética, dando prosseguimento ao processo. Cunha já prepara sua tropa de choque, comandada pelo deputado Paulo Pereira da Silva, líder do SD, para rejeitar o parecer caso ele seja mesmo pela continuidade do processo.

Terá então chegado a hora de o PSDB dizer mesmo de que lado está, orientando seus deputados a votar pelo acolhimento da denúncia. São dois os deputados tucanos entre os 21 integrantes do Conselho: Nelson Marchezan Júnior (RS) e Betinho Gomes (PE). Com o prosseguimento do processo, o PSDB terá que novamente provar que não finge votando pela cassação de Cunha no Conselho e depois no plenário.

Isso se não houver renúncia forçada de Cunha. Ele jura que não renuncia e essa deve ser mesmo sua disposição. Mas haverá uma pressão para que renuncie antes do acolhimento pela denúncia. Neste caso o processo seria suspenso e ele preservaria os direitos políticos, podendo voltar a se candidatar. Mas é pouco provável que faça isso, até porque sabe que, mesmo vencendo o julgamento político pela Câmara, deve tornar-se inelegível após ser julgado pelo STF. Então, sua aposta é na permanência na presidência da Câmara, um posto que lhe dá poder de barganha, pelo maior tempo possível."

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