O erro do mecânico que não leu Maslow

"Qual nota dar a um governo, quando são os meninos que dão aulas de democracia e cidadania ao governador e ao secretário da educação?

Sergio Saraiva, GGN 

Eu sou ex-aluno do Vocacional do Brooklin, a atual Escola Estadual Oswaldo Aranha, aqui em São Paulo. A esquina da Rua Pensilvânia com a Avenida Portugal tem para mim um significado pessoal, faço uma viajem a mim mesmo todas as vezes que passo por lá.

Foi lá que a Ditadura me ensinou a marchar antes de ter-me ensinado a resolver equações de primeiro grau. Mas foi lá também que eu aprendi a resolver as tais equações e outras. Foi lá também que eu aprendi que tinha a liberdade de entrar ou não em sala de aula e a responsabilidade de assumir as consequências do uso dessa liberdade, nas provas bimestrais. E eu entrei para assistir as aulas, na maioria das vezes.

Foi lá, em determinado momento, que as meninas passaram a exercer sobre mim uma atração irresistível. Foi lá que eu aprendi que um time de futebol é um pequeno exército onde somos todos “brothers in arms”. Foi lá que aprendi que um cigarro pode conter muito mais que nicotina, conter toda a transgressão.

Eu sou em grande parte o que o Vocacional do Brooklin fez de mim. Eu pertenço a ele e ele pertence a mim.

Essa introdução personalista foi-me necessária para refletir sobre o que ocorre hoje na educação paulista, retratado na reação e na resistência à “reorganização escolar” proposta pelo governo Alckmin.

Atrás de uma proposta pedagogicamente defensável, escolas por ciclos únicos de estudo, foi identificada imediatamente a mais valia – alunos alocados pela capacidade máxima das salas de aula, fechamento de escolas “ociosas” e redução de custos operacionais, a demissão do corpo docente como consequência. Conceitos de gerência de produção utilizados na educação – otimização do uso de recursos e do espaço com valor agregado. Nada mais natural para um sistema educacional que já usa o conceito de “FIFO – first in, first out” para promoção dos alunos.

A confiar-se nos números oficiais, 94 escolas seriam fechadas e 311 mil alunos seriam afetados pelas transferências. Não se impressionem, não é significativo. Segundo o Censo Escolar de 2014, o Estado mantém algo próximo a 3,8 milhões de alunos, não considerando o ensino municipal e o profissionalizante, distribuídos em 28.718 escolas.

Se não os números, o que então explica a épica reação dos alunos ocupando suas escolas em protesto? A Folha de São Paulo trouxe em manchete que as escolas foram invadidas. Os alunos invadiram suas escolas tanto quanto eu invado a minha casa todas as vezes que volto a ela. Mas a Folha é a Folha e o rabo preso da Folha é o rabo preso da Folha.

Simples. Sem prejuizo de ser consequência de arrogância e prepotência no trato das relações públicas, é o resultado do erro de dois homens que não dominam os conceitos necessários para exercer as funções e os cargos que ocupam.
Já dizia o poeta: “... gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente”.

Uma escola é mais que uma escola, ela é um dos elementos que formam a identidade de cada um. Ela supre a nossa necessidade de pertencimento. Como a nacionalidade ou nossa filiação afetiva a um time de futebol também suprem. Maslow explica.

Os alunos estão lutando para preservar o que os faz sentir eles próprios, estão lutando para não ser tornarem “apátridas”.

Como isso não foi considerado? Como uma decisão dessas, a de sacar uma pessoa de seu lugar e enviá-la sem seu consentimento a outro lugar no qual ela não tem suas referências, pode ser tomada seguindo uma lógica vertical, “top-dow”?

Vários são os motivos desse erro.

Um deles é considerar o cidadão como um subordinado. Os alunos não eram cidadãos, eram subordinados, deveriam tão somente obedecer às ordens dadas pela “autoridade superior”. Não é outra a razão de a polícia ter sido enviada às escolas ocupadas e não o dirigente de ensino. A polícia mediando uma questão pedagógica e de gestão escolar é sintomático de um governo que perdeu a sensibilidade social."

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