Quem ainda defende Eduardo Cunha?

Altamiro Borges, Blog do Miro

"O jornal O Globo, meio constrangido e melancólico, confirmou nesta quarta-feira (7): “Extratos bancários da Suíça atestam que o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), usou empresas offshore para movimentar contas bancárias na Suíça, segundo fontes com acesso às investigações. Os documentos remetidos ao Brasil confirmam o depoimento do lobista João Augusto Rezende Henriques, um dos operadores do PMDB na Petrobras, sobre a existência de contas bancárias controladas por Cunha”. A notícia, que merecia manchete nos jornalões e destaque nas emissoras de tevê, pode representar o melancólico fim de carreira do lobista que se transformou nos últimos meses num dos principais pivôs da ofensiva golpista pelo impeachment de Dilma.

Segundo a reportagem, “o Ministério Público da Suíça decidiu encaminhar à Procuradoria Geral da República (PGR) um procedimento aberto naquele país para investigar o presidente da Câmara por suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro. As investigações começaram em abril e tanto o MP da Suíça quanto a PGR entenderam que as chances de punição do deputado são maiores no Brasil... A PGR faz uma avaliação dos extratos bancários encaminhados pela Suíça. Até agora, já se sabe da veracidade do depoimento do lobista do PMDB e que as contas são de empresas offshore vinculadas à Cunha. Também seriam controladoras de contas na Suíça, onde estão depositados e bloqueados cerca de US$ 5 milhões, a mulher e uma filha do presidente da Câmara. Empresas offshore abertas em paraísos fiscais costumam ser usadas para esconder os verdadeiros beneficiários dos negócios”.

Diante da existência dos extratos bancários ganha força o movimento pela cassação do famoso “achacador”. O site Consultor Jurídico informa que “um grupo de parlamentares protocola nesta quarta-feira (7) representação contra o presidente da Câmara na corregedoria da Casa. No documento, eles argumentam que o peemedebista deve ser investigado por quebra de decoro parlamentar em razão do possível envolvimento com o esquema de corrupção na Petrobras. Os deputados ressaltam a recente denúncia do Ministério Público da Suíça de que Eduardo Cunha é titular de contas bancárias no país. Essa será a primeira representação contra Cunha no órgão superior da Casa legislativa, que atua no sentido de manter e investigar a conduta ética de seus membros”.

Os falsos moralistas da oposição e da mídia

Apesar deste agito, o “valentão” Eduardo Cunha resistirá aos pedidos da sua cabeça. Para isto, ele conta com o apoio dos chefões do PSDB, DEM e SD. O cambaleante Aécio Neves, por exemplo, mantém um silêncio ensurdecedor sobre seu aliado golpista. Já os demos, mais sujos do que pau de galinheiro, evitam bravatear sobre as contas suíças. Outro que aparenta estar de porre é o deputado Paulinho da Força, da SD. Por debaixo do pano, todos estes falsos moralistas defendem a manutenção de Eduardo Cunha na presidência da Câmara Federal até que ele conclua o trabalho sujo de detonar o processo de impeachment de Dilma. O único que tem coragem para explicitar esta sujeira é o líder dos tucanos na Câmara, Carlos Sampaio, metido a jagunço da ética: “Enquanto não houver informações adequadas que comprovem o envolvimento de Eduardo Cunha, o PSDB vai manter sua posição de apoio ao presidente da Casa”.

Eduardo Cunha também sabe que conta com a cumplicidade descarada da mídia oposicionista. Neste final de semana, o lobista deve ter ficado satisfeito ao ver nas bancas as capas da Veja, Época e IstoÉ. Elas mantiveram o violento cerco para “matar” o ex-presidente Lula e nada falaram sobre as contas “secretas” do achacador na Suíça. Nas emissoras privadas de rádio e televisão – que exploram concessões públicas – a manipulação também é desavergonhada. Cadê os comentaristas hidrófobos com as suas caras de nojo? Os jornalões até têm publicado algumas reportagens e artigos que comprometem a imagem do líder dos golpistas na Câmara. Mesmo assim, elas estão muito aquém do barulho realizado quando se trata de desgastar o governo Dilma. Até a ombudsman da Folha, Vera Guimarães Martins, criticou a seletividade do seu jornal em artigo publicado neste domingo (4). Vale conferir:

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Pouco barulho para uma pauta-bomba

O Ministério Público da Suíça informa: o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e seus familiares têm contas secretas naquele país. Avisa ainda que elas foram bloqueadas numa investigação local movida por suspeita de lavagem de dinheiro e corrupção. Em março, o peemedebista havia dito na CPI da Petrobras que não tinha conta nem dinheiro no exterior, a mesma declaração que deu à Receita Federal e à Justiça Eleitoral.

A notícia acachapante sobre o terceiro nome na linha de sucessores da Presidência da República é escândalo digno de manchetes bombásticas em qualquer democracia, mesmo numa acossada por escândalos em série, como a brasileira.

Na edição impressa de quinta-feira (1°), a revelação mereceu na Folha um título em uma coluna, uma tripa ao lado da portentosa manchete de cinco colunas sobre a queda de Aloizio Mercadante do Gabinete Civil – que sem dúvida era notícia, mas já estava no digital desde as 9h de quarta e em um site concorrente desde a noite de terça.

Em resposta à crítica interna da quinta-feira, a Secretaria de Redação concordou que a edição impressa não repercutiu, na capa e internamente, a gravidade da situação do presidente da Câmara e disse ter procurado melhorar a cobertura desde então. Na sexta (2), ela realmente melhorou, sobretudo no digital, mas o impresso ainda foi mais tímido do que a concorrência.

O assunto chegou à manchete em modestas três colunas, tamanho reservado a notícias menos flamejantes. Dividindo o alto da capa, chamadinhas leves (conhecidas na Redação como caramelos) para o centenário de Orlando Silva, o futebol e 30 opções para quem não come carne. Pode-se dizer que o prato principal cedeu espaço à sobremesa.

Não foi por falta de reconhecimento da gravidade do caso. Na mesma sexta, o principal editorial descrevia bem a escalada no grau de comprometimento de Cunha, embora ainda reservasse enorme dose de boa vontade ao aventar a possibilidade de que a informação da Suíça pudesse estar errada. Também pegou leve com a atitude imperial do deputado, que até então havia se recusado a falar do assunto, como se não devesse explicações.

O colunista Bernardo de Mello Franco (Brasília, na pág. A2) escreveu que Cunha "continua a confiar na covardia do governo e na cumplicidade da oposição, a quem se aliou na causa do impeachment". Até a sexta à noite (quando entrego a coluna), essa confiança era merecida: o presidente da Câmara estava sendo convenientemente poupado de críticas. Um deputado (anônimo, como sói acontecer) resumiu a chave oportunista: "Resta rezar para que a conta [de Cunha] só apareça após o impeachment".

É parte do jogo político essa complacência que atropela sem dó qualquer coerência e subordina valores republicanos a interesses de ocasião. E é a essa imagem de condescendência interessada que a Folha corre o risco de se ver associada com uma cobertura que parece não conferir o peso devido aos problemas de um dos principais personagens da crise política. Não é necessário pesquisar muito para comprovar que o jornal já fez muito mais barulho com histórias menos comprometedoras e figuras menos controversas."

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