Pautada por Cunha, Folha põe fogo antecipado na relação PT-PMDB

Jornal vem noticiando que o rompimento se dará em novembro próximo, num encontro que nunca teve poder para isso. Hoje, indicou que a notícia, ruim para Dilma, tem impacto sobre o mercado financeiro

Cíntia Alves, GGN

Há meses, a imprensa tradicional, pautada pelo discurso inflamado de Eduardo Cunha contra do governo, vem noticiando que, em novembro, o PMDB promoverá um encontro onde a maioria dos caciques pretendem deliberar pelo fim da aliança com o PT. Em colunas e reportagens, a Folha de S. Paulo, seguida por outros veículos, construiu a ideia de que a agenda pelo rompimento seria a sentença de morte para a gestão Dilma Rousseff. Mas o encontro extraordinário sempre esteve longe de ter os poderes da convenção nacional do partido, prevista para março de 2016. Sem destacar essa informação, o jornal publicou, nesta terça (20), que foi só o cenário do impeachment ficar embaralhado para o PMDB "subir no telhado".

De acordo com o Painel, o PMDB decidiu "cancelar seu congresso marcado para novembro devido às incertezas quanto ao cenário do impeachment", já que Cunha foi apanhado com novas denúncias na Lava Jato e o Supremo Tribunal Federal expediu liminares que atrapalham o rito do impeachment elaborado pelo presidente da Câmara. Em outra reportagem de hoje, o jornal indicou que o PMDB agora "discute adiar encontro que pode selar desembarque do governo".

A questão é que o PMDB não passou a discutir só agora, com as implicações de Cunha na Lava Jato, adiar a saída do governo. Na verdade, antes mesmo da conclusão da reforma ministerial na qual o partido levou sete pastas - incluindo o desejado Ministério da Saúde - o líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani, já havia informado que o encontro de novembro não tem poder nenhum de bater o martelo sobre o rompimento da aliança com o PT.

Ao GGN, em 16 de setembro, Picciani afirmou que desconhecia qualquer intenção do PMDB sobre decidir, em novembro, o desembarque do governo, pois o encontro "foi convocado pela Fundação [Ulysses Guimarães], que é um órgão de estudo do partido, não tem nenhum poder decisório. Ela pode fazer um debate, mas não poderá tomar decisões. O partido entrou na aliança do governo por decisão da convenção nacional, que é o orgão máximo. Para sair, só por decisão de outra convenção, e a próxima acontece só em março.”

Folha só revelou isso ao seu leitor, na edição de hoje, no 10º parágrafo da reportagem: "Apesar da queda de braço dentro do PMDB, os dois grupos concordam em um ponto: independentemente da data marcada, não deve haver resolução oficial sobre a saída do partido do governo no encontro, que teria poderes apenas para sinalizar a tendência da sigla, mas não tirar uma posição definitiva."

Antes disso, adotou o tradicional tom alarmista de outras matérias, superdimensionando os desejos de Eduardo Cunha e os impactos do abandono do governo Dilma pelo PMDB.

No Painel, o caráter incendiário da notícia foi expresso da seguinte maneira: "A realização do congresso nos moldes originais era vista como um péssimo sinal pelo mercado financeiro. Em um relatório obtido pela coluna, uma agência internacional de classificação de risco considerava que o rompimento era uma das variáveis para o rebaixamento da nota de crédito do Brasil."

O congresso da Fundação pode - e provavelmente irá - servir de palanque para peemedebistas insatisfeitos com o governo demandem o fim do namoro. Mas isso não é bem um fato inesperado pelo PT, já que o presidente da legenda, Michel Temer, afirma, desde 2012, que a aliança tem prazo de validade, uma vez que o PMDB pretende ter candidato próprio em 2018."

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