O sucesso do primeiro filme da Netflix e o beco sem saída da TV aberta


Kiko Nogueira, DCM

"Não é apenas o modelo de negócio baseado na internet que faz o sucesso da Netflix, mas uma aposta na excelência do conteúdo. É isso, eventualmente, que está fazendo a diferença na corrida contra os dinossauros da televisão e do cinema.

Veja o caso de “Beasts of No Nation”, o primeiro filme produzido pelo canal de streaming. É o maior êxito da companhia, tendo sido lançado no dia 16 de outubro.

De acordo com o CEO Ted Sarandos, são 3 milhões de visualizações apenas na América do Norte. “Na semana de lançamento, foi o filme mais visto em cada país em que nós operamos”, disse ao site Deadline. Sarandos citou Japão, México e Brasil como surpresas, lugares onde “essas produções geralmente nem estreiam”.

A preocupação da Globo com a Netflix é compreensível. No início de novembro, a Globo Play começa a funcionar, com programas da emissora transmitidos pela web.

Mas é como um sessentão de jaqueta de couro tomando uísque com energético. A Globo é refém de seu gigantismo, da tentativa de agradar ricos, pobres e goianos e do baixo nível de sua dramaturgia. Quando só havia ela, era o suficiente. Não vamos esquecer do dinheiro público que ainda banca tudo isso. A GloboFilmes, por sua vez, leva a estética capenga da novela para as telas.

Quando surge a oportunidade de algo ousado e diferente (e lucrativo), um sujeito como José Padilha, produto de “Narcos”, faz negócio com quem?
A Netflix investiu em séries como “House of Cards” (com Eduardo Cunha no papel do facínora Frank Underwood), “Orange is the New Black”, “Lilyhammer”, “Better Caul Saul”, entre outras. O protagonista de “House of Cards” é um político bissexual assassino. A brilhante “Orange” tem a maior coleção de lésbicas da TV. Não são temas, digamos, para a família. É preciso alguma coragem.

“Beasts” não é fácil. Num país fictício da África, o pré-adolescente Agu, o narrador, vê seu vilarejo ser tomado pelo exército. A mãe é despachada com o bebê para a capital. Agu é capturado juntamente com o pai, o irmão e o avô.
Os três são fuzilados e ele foge para a floresta, onde é cooptado por uma milícia rebelde. Torna-se o favorito do Comandante (o grande Idris Elba, de “Mandela” e do seriado “Luther”) e o melhor amigo de um menino mudo chamado Strika.

O Comandante, a quem os jovens soldados têm devoção cega, o ensina a matar. Seu rito de passagem é esquartejar um engenheiro. Agu é uma máquina de guerra de 9 anos com saudade de uma infância que não viveu. Até que ele e seus companheiros resolvem tomar uma atitude. A direção é Cary Fukunaga, responsável por alguns episódios de “True Detective”.

É franco, brutal, honesto, violento. Chegou a ficar um tempo em cartaz em cinemas dos EUA e Inglaterra. Um fracasso — mas tempo suficiente para que a Netflix possa fazer a inscrição no Oscar.

“Beasts of No Nation” fala de um lugar remoto que, paradoxalmente, é muito mais familiar do que você jamais esperaria. Mais próximo, real e instigante do que os Jardins, Ipanema ou a periferia enlatada com atores de botox pós-praia que tentam te vender."

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