O escárnio dos beócios com o atraso de estudantes na chegada ao ENEM

José Guilherme, 18 anos, foi tomar cerveja e apreciar o sofrimento dos candidatos do ENEM
Mauro Donato, DCM

São 12:45 de domingo. Beócio de Chevalier acabou de acordar. Toma um iogurte com cereais em frente à TV da sala que traz imagens ao vivo de estudantes chegando esbaforidos aos locais de prova do ENEM. As cenas repetiam o mesmo roteiro do dia anterior, quando um outro colega seu havia preparado um isopor com cervejas e foi para a calçada de um local de exames apenas para se divertir.

À medida que os minutos vão se passando em contagem regressiva, as chegadas são cada vez mais desesperadoras e angustiantes. Nos segundos finais, o clímax. Alguns precisam se jogar por baixo dos portões. Beócio de Chevalier cai na risada.

Nosso herói tem mais de trinta anos e mora com os pais. Não trabalha. Sempre estudou em escolas particulares, dessas cuja mensalidade seria suficiente para alimentar uma família de quatro pessoas.

O drama de pessoas que estudaram por muitos meses para obter uma pontuação que lhes permita o benefício de uma bolsa do Prouni ou para obter financiamento pelo Fies (suas únicas maneiras de prosseguirem com os estudos) é para Beócio uma comédia. Ele jamais precisará disso. Seus pais são ricos e as fontes de renda são múltiplas. Ele sabe que nunca precisará trabalhar.

Ignora por completo que aquele homem que chegou apenas quatro minutos atrasado era Araújo da Silva, de idade similar à sua, estava trabalhando na padaria desde às 5 da madrugada e não teve autorização para sair mais cedo.

Araújo deseja cursar uma faculdade mas seu objetivo primeiro era realizar os exames do Enem para obter o certificado de conclusão do ensino médio (sim, também serve para isso), não concluso pois sempre precisou trabalhar em dois empregos para ajudar em casa.

O que Beócio de Chevalier não sabe também é que se houvesse necessidade de concorrer munido de sua formação, tanto acadêmica como familiar, teria uma pontuação pífia.

As provas no sábado e no domingo traziam questões que citavam Simone de Beauvoir, Nietzsche, Max Weber e Hobbes (não, Beócio, não é de O Senhor dos Anéis).

Personalidades que nem a emissora de TV sintonizada em sua casa (vale um mousse de chuchu para quem adivinhar qual) nem a revista semanal sobre a mesinha de centro costumam mencionar (retiro o desafio, está fácil demais).
E, quando o fazem, é na proporção de 1 para 200 vezes em que trazem os personagens Marco Feliciano ou Jair Bolsonaro para contrabalançar. Aliás, ao tomarem conhecimento dos temas das provas e sobretudo da redação (“A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”), ambos manifestaram-se nas redes sociais demonstrando toda sua tolerância e conceito de sociedade pluralista. Disseram que aquilo era francamente “doutrinário” e “marxista”. Nas fotos, suas expressões ranzinzas de “gente de bem” acompanhavam os posts.

Agora até o ENEM é de esquerda. Estamos perdidos, é uma conspiração, ninguém está vendo? Esses comunistas querem dominar tudo mesmo. Foram exigidos ainda conhecimentos sobre a crise hídrica?!?! Isso só pode ser tendencioso, até Beócio de Chevalier sabe que é culpa da falta de chuvas. Ele viu na televisão, essa questão ele tem certeza de que acertaria.

“Não creio que tenha sido o conteúdo ‘de esquerda’ das provas o que mais estarreceu os conservadores brasileiros neste final de semana. Na verdade, foi a alta qualidade da formulação do Enem que fez tremer os detentores da cultura pela via do poder econômico. Devem estar se perguntando: ‘Como um pé rapado pode estar tratando de questões tão complexas e atuais?; Como interrelacionam conteúdos assim tão densos, éticos e filosóficos?; Cadê o ‘vovô viu a uva’ para essa gentalha?’, cheios de um ódio que se confunde com o medo de um país mais justo e inteligente”, disse Marcílio Godoi, escritor.

O que será do futuro de Beócio de Chevalier se um país mais justo e inteligente eclodir? Afinal, parodiando Simone de Beauvoir, ninguém nasce beócio. Torna-se. E ele dedicou-se tanto, coitado."

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