Os tomates e o capitalismo de conluio


Luis Nassif, GGN

"Em geral, os empresários referenciais falam pouco e têm foco. Aparecem mais pelo exemplo e pela coerência de suas propostas do que pela verborragia.
Quando o empresário julga que sua palavra ganha peso apenas por vir escorada em negócios bem-sucedidos, dança. 

É o caso do empresário Flávio Rocha, herdeiro e presidente das Lojas Riachuelo – grupo que têm ainda a Confecção Guararapes e algumas outras empresas.

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Mais jovem, Flávio não largava do pé do grande Roberto Campos, provavelmente supondo que inteligência se transmitisse por contato. Não conseguiu.

Neste fim de semana concedeu uma entrevista ao Estadão (http://migre.me/rtd6j), onde não teve a menor cerimônia de tratar de temas complexos com a segurança de um vendedor da Riachuelo expondo a última moda para a freguesa deslumbrada.

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-- Vamos começar com uma boa notícia – começou ele, antecipando a intenção de desenvolver ideias e conceitos.

Aí discorre sobre o fim de um ciclo de ideias ruins, insustentáveis, compara o país com uma carruagem cujos “elementos de tração” são as empresas e os trabalhadores. 

Com a mesma naturalidade com que seus vendedores exibem peças de vestuário nas vitrines, Flávio transborda filosofices e lugares comuns, cujo ápice foi a parábola do tomate:

- Quando você vê o preço do tomate aumentar é um alerta importante que denuncia uma escassez localizada. E o que se faz nessa hora? Nada. Deixa a ganância empresarial atuar. O produtor vai descobrir que tomate está dando lucro, mais gente vai produzir tomate, aumentar a oferta e o preço volta para onde estava. Dilma ignorou essas delicadas engrenagens da economia.

É a primeira vez que alguém denuncia o tabelamento do preço do tomate. Choques de oferta, de demanda, política monetária, demanda agregada, que bobagem! O must é discutir o tabelamento do tomate.

Mais importante é o que Flávio diz sobre o mundo que ele conhece: o empresarial.

-- Tem o empresário de mercado e tem o empresário de conluio. (...)  O termo campeões nacionais, até outro dia, fazia parte do discurso nacional. Um absurdo. (...) Muitas vezes, você olha e diz: ah, são os empresários. Mas vai ver e o que tem é o clubinho do capitalismo de conluio.

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Nem se vá buscar as origens da Guararapes, nos tempos em que o Finor (Fundo de Investimento do Nordeste) era um aparelho de queimar dinheiro público para propósitos privados.

Uma ida ao site do BNDES permitirá identificar rapidamente quem são esses empresários do clubinho do capitalismo de conluio.

Clique no endereço http://www.bndes.gov.br/bndestransparente no campo Busca coloque a palavra Riachuelo.
  1. Outubro de 2009: financiamento de capital de giro. R$ 100 milhões a juros de 3,58% ao ano e 12 meses de carência.
  2. Janeiro de 2010: financiamento de R$ 286,7 milhões para implantação de mais 19 lojas. Taxas de juros de 4,5% ao ano, com 18 meses de carência.
  3. Junho de 2011: R$ 229,3 milhões de financiamento para abertura de mais 25 novas lojas. Taxas de juros de 5% ao ano, com 18 meses de carência.
  4. Agosto de 2012: R$ 140 milhões de financiamento para a abertura de mais 18 lojas. Taxa de juros de 5,5% ao ano.
  5. Dezembro de 2013: R$ 397,9 milhões para expansão das unidades industriais e centros de distribuição. Taxa de juros de 3,5%, com 18 meses de carência.
Apenas nessas operações R$ 1,2 bilhão em 5 anos. Provavelmente o valor desembolsado deve ser muito maior, se consultar por outros CNPJs – o grupo é constituído de várias empresas."

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