Nem rendição, nem prostração: o trunfo da coerência


"A votação dos trabalhistas ingleses mostra que o caminho não é o da rendição, nem prostração, mas da coerência entre desenvolvimento e democracia social.

Saul Leblon, Carta Maior 

Um paradoxo muitas vezes esconde a luz esclarecedora que a linearidade das aparências sonega.

Quatro meses após a derrota para o conservador David Cameron, nas eleições gerais de maio, na Inglaterra, o alquebrado partido trabalhista britânico deu uma guinada à esquerda no último sábado.

Em vez de consagrar a esperada rendição ao centro – ao neoliberalismo de Tony Blair— para disputar a hegemonia política com os herdeiros de Thatcher, os trabalhistas colocaram na sua direção um símbolo da socialdemocracia europeia que se perdeu num tempo de adesão aos ditames dos mercados.

Jeremy Corbyn , vitorioso  na convenção do último sábado, com 60% dos votos, condensa em suas convicções de homem de esquerda aquilo que um documentário recente do cineasta Ken Loach batizou de ‘O espírito de 45’

Do que se trata? 

Trata-se de um capítulo ideologicamente remoto da história em que uma Europa destruída pela guerra encontraria na convergência entre o Plano Marshall, o temor burguês ante a expansão comunista, e o florescimento da social democracia, um blend propício à construção de uma democracia que adicionasse à igualdade política o direito social à igualdade de acesso a bens, serviços e oportunidades da civilização.

Ancorado em um Estado indutor de políticas e investimentos, floresceria um poder baseado em sindicatos fortes e governos comprometidos em garantir o pleno emprego, serviços públicos de qualidade, ademais de moradia e segurança alimentar.

Como é que um representante dessa agenda dada como morta ressurge em pleno século XXI e arrebata o trabalhismo domesticado por quatro décadas  de genuflexão ao mercado?

E, pior, comete essa heresia após uma derrotada reiterativa do candidato de centro esquerda de seu partido, o bem intencionado Edmund Miliband , para o engomadinho Cameron?

Mas, sobretudo, em que medida a luz  escondida nesse paradoxo pode iluminar a hora sombria da política brasileira?

Qual?

Esta em que o golpismo se dá a prerrogativa de impor ao governo Dilma a disjuntiva imperial estampada pela Folha em seu editorial de primeira pág, na edição deste domingo: ‘arrocho sem precedente ou renúncia’.

Mais, talvez, do que poderíamos supor ao primeiro olhar.

Em primeiro lugar, a vitória conservadora em maio desmente a ilusão –muito comum no ciclo de governos do PT--  de que as condições econômicas objetivas falam por si, gerando luz suficiente ao esclarecimento político da sociedade.

A economia da Inglaterra cresceu 2,8% no ano passado –é verdade. Foi a taxa mais vistosa do G7.

O desemprego diminuiu para 5,8%.

Os números do PIB e do mercado de trabalho ajudam a entender, em parte, que os eleitores tenham decido dobrar a aposta inercial no camafeu do conservadorismo.

Mas havia também fortes razões em sentido contrário para afrontá-la.

Por que não prevaleceram?

Os institutos de pesquisa, todos eles, trabalhavam com o cenário de uma disputa renhida, a mais apertada desde a Segunda Guerra.

Havia razões objetivas para isso.

A prioridade do primeiro mandato de Cameron foi –adivinhe-- a redução do déficit público.

Mesmo assim, o Estado inglês fechou as contas de 2014 com um rombo equivalente a 5,4% do PIB.

E Cameron fez campanha pela reeleição prometendo mais arrocho.

Por isso, naturalmente, não se entenda a taxação dos mais ricos.

Um dos setores mais retalhados no cepo conservador no seu primeiro mandato foi a derradeira joia do orgulho socialdemocrata inglês: o sistema público de saúde, uma espécie de SUS desenvolvido, comido pelas berbas, como diria Brizola, por sucessivos mandatos da linhagem inaugurada por Thatcher, em 1979.

Cameron deu a sua cota ao canibalismo regressivo.

O premiê ‘enxugou’ a rede de postos de atendimento, terceirizou serviços, rebaixou o padrão de qualidade e comprimiu salários do corpo profissional.

Como foi possível reverter o que era uma invejável conquista da civilização e, ainda assim, ganhar as eleições?

É aqui que o paradoxo, acentuado agora pela vitória esmagadora da esquerda na convenção trabalhista, encerra questões cujo interesse extrapola as fronteiras inglesas.

E talvez ajude a esclarecer certas urgências e equívocos em outras latitudes mais ensolaradas do Atlântico.

Desde 1979, com a ascensão da dama de ferro, a hegemonia conservadora – persistente, mesmo em intervalos de poder trabalhista -- vem escavando o sistema de proteção regulatória dos que vivem do próprio trabalho no capitalismo que mais ensinou a Marx sobre a ação predadora intrínseca ao sistema.

Ticados pelos sucessivos filhotes de Thatcher – inclua-se nessa prole Tony Blair, batizado pela dama de ferro como a sua ‘principal obra’ — a classe operária e os sindicatos ingleses foram progressivamente  perdendo força, desde a derrota emblemática dos mineiros na greve de 1984.

Foi ali que Thatcher, com inestimável ajuda da rendição trabalhista, fincou a estaca neoliberal no coração do ideário socialdemocrata  - feito que só Pinochet conseguira lograr  antes,na América Latina, mas às custas de um banho de sangue.

Na Inglaterra, a mecânica encontrou seu ponto de equilíbrio na intersecção entre duas curvas em cruz.

De um lado, a espiral ascendente das reformas.

Novas legislações aprovadas a partir da derrota dos mineiros em 1984 enfraqueceram o poder de negociação dos sindicatos.

O emprego foi banido para a zona da precariedade, a corrosão salarial prosperou ao lado de ampla desregulação do comercio e da finança, que fez da City londrina o ponto de esplendor da grande lambança da globalização financeira.

A espiral descendente da qualidade de vida ganharia um empurrão pró-cíclico com a rendição ideológica do trabalhismo inglês aos ditames dos mercados autorreguláveis.

Precariedade trabalhista, desmonte industrial e fastígio rentista.

A eutanásia funcionaria como um solvente na capacidade de organização e resistência da sociedade e dos sindicatos às ‘reformas’.

O saldo da rapina é significativo.

Quase 2,5 milhões de crianças vivem atualmente na antessala da pobreza absoluta nessa que é a terceira maior economia europeia.

São os herdeiros mais vulneráveis de lares que subsistem com uma renda 60% inferior à média inglesa.

Na Albion sombria, floresceu um pujante sistema  bancário paralelo à City.

O dos bancos de alimentos, que acodem um número crescente de famílias.

O maior deles, o Trussell Trust , segundo informou em maio o El País, distribuiu 1,1 milhão cestas de alimentos em 12 meses até então.

Um volume 27 vezes maior do que há cinco anos.

‘A esses números seria necessário somar os de outras centenas de bancos de alimentos independentes que operam em todo o país’, adverte o jornal.

A insegurança alimentar assumiu contornos de um verdadeiro problema de saúde pública na Inglaterra de Cameron.

Quem diz isso são médicos e assistentes sociais do serviço público, encarregados de cadastrar o acesso às doações de alimentos.

Sem uma alternativa política clara, capaz de oferecer à sociedade uma mensagem crível de opção à viagem regressiva ao capitalismo desregulado, deu-se o que se viu em maio, com a vitória surpreendente de Cameron.

Na superfície, o feito legitimava o upgrade pretendido no processo de curetagem econômica e ideológica do ‘espírito de 45’, para enterrá-lo de vez na vida e no imaginário britânico.

A democracia social  implantada no pós-guerra não só na Inglaterra, mas em boa parte da Europa, impunha um contraponto efetivo à extração da mais valia capitalista.

Instituiu uma espécie de segundo salário cativo das famílias trabalhadoras.

Escola boa, transporte barato e eficiente, alugueis baixos com moradias sociais, saúde pública de reconhecida qualidade formaram no pós-guerra o colchão de sobrevivência diga, capaz de fortalecer o poder de barganha dos sindicatos e servir como válvula de negociação do desenvolvimento industrial.

O ganho de produtividade subtraído aos salários no chão da fábrica era compensado por avanços na rede de proteção social, financiada com receita de um sistema tributário mais justo e progressivo.

A rigidez desse amortecedor foi um dos alvos da guerra neoliberal contra o ‘custo Inglaterra’, implementada pelos blindados de Thatcher.

Ao engrenagem submeteu e desossou a socialdemocracia inglesa, incluindo-a na faxina imposta à rede de proteção da sociedade.

Em toda a UE, apenas os dilacerados mercados de trabalho de Portugal e Grécia pagam atualmente salários médios mais baixos que aqueles recebidos pelos trabalhadores do Reino Unido.

São inglesas, também, as experiências mais radicais de desregulação do mercado de trabalho em curso na UE.

A mão de obra ‘just in time’, como já observou Carta Maior neste espaço, é uma dessas modalidades de flexibilidade acalentadas aqui pelos coveiros de bico longo da CLT.

A nova tecnologia trabalhista inglesa reduz o empregado a um insumo igual a qualquer matéria-prima.

Só é requisitado do depósito quando a demanda assim o exige; receberá apenas e somente o equivalente ao tempo usado pela engrenagem produtiva.

Há 700 mil ‘insumos humanos’ desse tipo no capitalismo britânico.

Essa é a modalidade de ‘emprego’ que mais cresce na terra dos vitoriosos conservadores.

O pulo do gato é que isso  guarda estreita funcionalidade com o fastígio da riqueza desregulada na outra ponta do sistema.

Mais que nunca, a Inglaterra singulariza-se como um império financeiro no qual, como disse a revista Vanity Fair há alguns anos, o sol nunca se põe.

Em qualquer momento do dia ele brilhará em um dos muitos paraísos fiscais do planeta, interligados à City londrina

Não por acaso, o maior escândalo bancário do século XXI , a manipulação da taxa Libor, descoberta em 2012,  floresceu nesse vertedouro por onde transitam os fluxos do dinheiro frio mundial.

A indiferenciação sebosa entre isso e aquilo, na qual se transformou a alternância  política entre conservadores e trabalhistas  nesse capitalismo desregulado, afastou a juventude dos partidos e das eleições facilitando o que parecia ser uma hegemonia  incontrastável do mainstream neoliberal.

Começa a se desfazer, assim, o paradoxo que só aparentemente opõe a vitória de Cameron, em maio, à esmagadora consagração do seu oposto, Jeremy Corbyn, na convenção do último sábado.

A verdade pouco destacada  é que  Cameron revalidou seu mandato  com apenas 37% dos votos em um escrutínio que teve 40% de abstenção.

Sim, 40%. Na média.

A  taxa  chegou a até 60% entre a juventude, sobretudo em  regiões pobres de Manchester, por exemplo.

Pois foi exatamente essa juventude ‘apática’, ‘apolítica’ , ‘desligada dos partidos’, ‘indiferente aos velhos paradigmas de direita e esquerda’, como diz a sociologia conveniente de Marina Silva, FHC  e assemelhados,  que se atirou de corpo e alma na campanha de Jeremy Corbyn e lhe deu o comando do trabalhismo britânico no último sábado.

Foi essa a gênese do terremoto que vai sacudir o sonambulismo da esquerda europeia a partir de agora.

Diante de uma referência crível, personificada na coerência e na dignidade de um velho quadro de esquerda,  a prostração arregaçou a manga e tomou de assalto o partido trabalhista,  que quase dobrou de tamanho nos últimos três meses.

De 105 mil novos inscritos nesse período, 88.499 votaram em Corbyn.

Do paradoxo surge a luz.

Réplicas de Cameron e de sua agenda continuarão a vencer urbi et orbi sempre que agremiações de trabalhadores se distinguirem disso apenas pelo celofane, mas exalando o mesmo recheio rançoso.

Sim, Corbyn terá sérias dificuldades pela frente; 2015 não é 1945; em vez do Plano Marshall a Europa hoje vive sob o tacão de Merkel e da troika ortodoxa. Os capitais desregulados fazem gato e sapato de governos e sistemas econômicos.

Sim. Mas 2015 tampouco é 1979.

O fastígio neoliberal jogou o mundo na maior crise capitalista desde 1929.

E está longe de ser superada, como mostra a recidiva agora impulsionada pelas dificuldades nas economias em desenvolvimento e na China.

Todo o planeta sofre a saturação social da mais lenta, errática e incerta recuperação de todas as crises vividas pelo capitalismo do século XX até agora.

Quem ainda acha que o fenômeno Jeremy Corbyn não diz nada  de novo e pretende insistir no celofane da indiferenciação  pode ser surpreendido.

A demanda por recheios distintos vai acabar produzindo a sua oferta: nem rendição, nem prostração, mas coerência entre desenvolvimento e democracia social. "

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