Morrem os jornais, surgem as marcas jornalísticas

Carlos Castilho, Observatório da Imprensa

Os jornais estão deixando de ser um produto para serem marcas. Muito em breve não teremos mais um jornal chamado O Globo. Para acessarmos notícias, reportagens, crônicas, blogs, infográficos e peças multimídia talvez tenhamos que procurar a marca O Globo num conjunto disperso de publicações. Não é mais a plataforma que importa, mas a qualidade da informação publicada nas mais diferentes plataformas.

Para os donos de negócios jornalísticos a notícia não é nada animadora porque significa o fim de uma era e o esgotamento de uma máquina de fazer dinheiro que gerou muitas famílias multimilionárias. Mas para os jornalistas pode ser uma grande novidade porque o exercício da profissão deixará de ser primariamente condicionado pelo fator comercial, para voltar aos primórdios da atividade quando o que valia era o tipo de material publicado, bem como a honestidade e credibilidade do autor.

As publicações impressas estão deixando de ser um produto físico comercializável porque perderam espaço para as novas tecnologias de informação e comunicação, especialmente para plataformas digitais como Facebook, Twitter, Youtube, Google e centenas de outras. A evolução tecnológica está enterrando um negócio que chegou a ser obscenamente lucrativo no final do século XX, mas que entrou em crise da mesma forma que sucumbiram os copistas medievais, as indústrias produtoras de máquinas de escrever, do telex e do fax, para citar apenas os exemplos mais conhecidos.

Os grandes conglomerados jornalísticos, cujo poderio se materializava em seus ativos físicos e financeiros, tem agora a sua sobrevivência condicionada à credibilidade de uma marca. Esta reconversão de modelos de negócios é viável, mas ela tem um preço: a perda da arrogância corporativa e política que sempre caracterizou os chamados “barões da imprensa”. A credibilidade da marca vai exigir investimentos na produção qualificada de noticias, na contratação de profissionais também qualificados e no desenvolvimento de softwares especializados em curadoria de informações, processamento e analise de dados. É o mínimo para garantir a sobrevivência de marcas como Folha de São Paulo, The Washington Post ou Times.

A indústria dos jornais está morrendo como negócio altamente lucrativo, mas o jornalismo, seguramente, não terá o mesmo destino. Está em curso um divórcio cujas consequências nós ainda mal vislumbramos. A crise na indústria de publicações jornalísticas é concreta e ela vai nos fornecer alguns indícios importantes sobre a verdadeira relação dos empresários da imprensa e o jornalismo. Se eles reorientarem os seus negócios para outras atividades econômicas, ficará claro que o discurso adotado até agora sobre temas como o papel da informação e da liberdade de expressão era meramente circunstancial e oportunista.

Mas alguns empresários, como parece ser o caso dos controladores do The New York Times, demonstram interesse em continuar apostando no jornalismo, mesmo que sem a esperança de grandes lucros. É uma possibilidade que permitirá a sobrevivência de alguns títulos muito conhecidos, mas ainda é uma alternativa sujeita a idas e vindas, como por exemplo, no caso do NYT, a sucessão dentro da dinastia Ochs-Sulzberger que controla o jornal desde 1896.
O jornalismo como marca com confiabilidade certificada pela audiência também depende de sustentabilidade econômica. Mas a forma pela qual o exercício da atividade se relaciona com a sua sobrevivência financeira tende a ser bem diferente da que existia até agora entre as famílias ou acionistas controladores de um jornal e os seus empregados na redação.

Em primeiro lugar, a desorganização do mercado corporativo no segmento das indústrias de comunicação jornalística gerou uma grande dispersão dos jornalistas, ao mesmo tempo em que as novas tecnologias reduziram enormemente a diferença entre profissionais e praticantes de atos jornalísticos (amadores ou jornalistas cidadãos). Isto produziu uma situação em que temos simultaneamente uma alta concentração de plataformas digitais e uma inédita segmentação de empreendedores individuais explorando nichos informativos diferenciados.

A extraordinária concentração de plataformas de disseminação de informações como Facebook, Twitter, YouTube, Apple e Google, por exemplo, é avassaladora. A indústria dos jornais, revistas e audiovisuais está sucumbindo rapidamente à expansão viral de sistemas muito mais ágeis, econômicos e globalizados, mas a concentração tem um ponto fraco, nada desprezível: ela depende da fidelidade de seus usuários, um fator que na era digital passou a ser extremamente fluido. Esta liquidez é uma das características centrais da nova economia digital.

Já para o segmento dos profissionais e não profissionais autônomos a fluidez conjuntural está sendo incorporada à rotina de trabalho. A nova geração de jornalistas não cria empresas, mas marcas e sua relação com elas é essencialmente fluida. Tanto podem vendê-la para um investidor quando atingem um determinado patamar de confiabilidade e lucratividade potencial , como podem tranquilamente começar tudo de novo em caso de insucesso. O acompanhamento do fenômeno das start-ups (empresas iniciantes, individuais ou em pequenos grupos) mostra um enorme cemitério de marcas, cujos criadores já estão noutra atividade ou projeto.

A estabilidade das empresas jornalísticas cede cada vez mais espaço para a mutabilidade das marcas jornalísticas."

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